Diário da Manhã

A Volta de um Passarinho

Por Pablo Morenno

A filhinha de amigos ganhou um canário. Um dia adoeceu e morreu, o pássaro. Consumiram com o corpo da ave para não visse, a menina. Contaram-lhe em meias verdades. Disseram-lhe que ele tinha saído voando da gaiola. Não chorou. Foi passear lá na casa da vovó dele – disse ela para os pais –, um dia ele volta. E fez os pais manterem comida e água na gaiola durante semanas. Com o passar do tempo, foram desdizendo a mentira. E a menina foi crescendo, crescendo... Hoje nem lembra que o passarinho ainda pode voltar.

A maior virtude das crianças é a fantasia. E essa virtude, é a primeira coisa que fizemos os pequenos perder. Por causa da fantasia na infância não há morte, não há trabalho, e a insônia é apenas despertar com pesadelos de um fantasma inventado.

Extinguir o medo dos fantasmas é a segunda malvadeza que fizemos com os menores. Pensando bem, a primeira, porque tornar-se adulto é um castigo da natureza e ficar sério sua consequência inerente. Fizemos de tudo para que as crianças deixem de acreditar em fantasmas. Depois a indústria cinematográfica fatura milhões com seus fantasmas assassinos. E os adultos fazem um gritedo nos cinemas. Depois, lá fora, são os primeiros a convencer ao primeiro menino da rua que o mundo do cinema não existe no mundo da vida.

Passa o tempo. De filhos viramos progenitores. Esse nome requintado de quem se muda do castelo da imaginação para a casa da realidade. Trocamos os dragões do castelo, suas bruxas e fadas, por cachorros e empresas de segurança, por piscinas e carros na garagem. Nada se torna mais preocupante do que as metas do trabalho, do que o ganho mensal, do que uma viagem para a Europa sorteada pelo cartão de crédito. Estratégias, programas, treinamentos. Tudo somado nas teclas da calculadora.

Há as recaídas. As falsas desculpas de comprar fantasias do Batmam para o filho e ou uma mochila da  Rapunzel para a filha. E os homens carecas e as mulheres de coque passam horas fuçando as prateleiras das lojas e observando a vida que se foi, o menino e a menina que ficou idiota com o tempo.

Observo a cidade com suas vitrines, ruas decoradas, as casas que ainda põe arranjos nas portas. Analiso as propagandas na televisão e nos jornais, os folhetos dos supermercados, os pacotes de ano novo, as promoções das revendedoras de automóveis. Rio das pessoas correndo pelas ruas, olho as festas de final de ano das empresas, as brincadeiras de amigo-secreto ...

É tempo de Natal. Toda a cidade se pinta como uma Cinderela. Ouço as canções natalinas enjoadinhas e até me emociono. Nesta época, a infância é um passarinho que volta para o mundo adulto por algumas semanas. E toda essa fantasia pode ser vivida sem medo de que alguém recrimine nossa imaginação infantil ou que nos convença de que a existência mesma, que a vida mesma, é apenas fruto dos delírios de algum fantasma inventado.

Sugestão de atividade de produção textual:
Desafiar os alunos (de qualquer idade) a escrever uma cartinha para o Papai Noel sem que conste qualquer pedido de valor material. Os pedidos podem ser pessoais ou para o mundo. O que eles querem e o porquê eles querem aquilo. Depois, os textos podem formar a árvore de Natal da turma. 
 

Comentários

Galerias de Fotos

Anuncie Aqui

Horários de Voos

Vôo Empresa Horários Destino (s) Frequência
AD-5167 Azul / Trip 06:55:00 Campinas Sextas
AD-5165 Azul / Trip 07:00:00 Campinas segunda a quinta e sábado
AD-5139 Azul / Trip 12:40:00 Campinas domingos às sextas

Baixe o Aplicativo do Jornal

Matriz

Curta o Diário

(54)3316-4800Passo Fundo

(54)3329-9666Carazinho

  • Passo Fundo: (54) 9905-7864

    Carazinho: (54) 9959-5027