Diário da Manhã

Literatura e travesseiros

Os nossos cinco filhos chuparam bico até os três anos, quatro no máximo. Além do bico, cada um usava alguma coisa para arrastar junto consigo. Quem tem filhos sabe histórias de góin-góins. Eu tenho um, juro! Carrego há anos um travesseiro que é lavado de tempos em tempos e que ainda não foi descartado, por que acredito na máxima; O travesseiro é o melhor conselheiro. As soluções e o consolo para as nossas dores, reconheço, estão dentro de nós e o travesseiro recebe, noite após noite, como uma esponja, o que elaboramos do que a vida nos traz, de bom e de ruim.

A introdução serve para responder às muitas manifestações que recebi após a publicação da minha crônica deste final de semana “Como não morrer por dentro”. Sim, eu posso abandonar um livro! Sim, meu livro de cabeceira acendeu uma luz para outro assunto, mais urgente, mais de acordo com as expectativas da minha alma e meu travesseiro, generosamente, falou do que me falta. Sim, eu posso deixar de passar roupa para continuar lendo, por que meu intelecto tem fome. Sim, é normal ter vários livros começados e, assim como a fome do corpo, o cardápio deve ser variado. Não é falta de disciplina isso, mas sinal de que estamos ansiosos e já, já faremos escolhas, uma vez identificadas as nuances íntimas, às vezes inconfessáveis, que o travesseiro revela.

O quesito “deve-se ler tudo o que nos caia às mãos” serve para formar nosso gosto, para conseguir selecionar, para dar trabalho ao góin, góin que cada um carrega. Um grande SIM é para a dúvida sobre vivermos fases de fome por um estilo, ou assunto, ou autor. É legítimo sermos volúveis, afinal nenhum autor pediu fidelidade. Há fases em que relatos de viagem nos fascinam, para pularmos para o terror, depois para os clássicos, que, esses sim, nos carregam como um rio, onde levamos margens com sofreguidão. Dostoiewski nos arrebata a ponto de nosso travesseiro “pingar” de emoções e sentimentos recém despertados e que precisam decantar para transformarem-se em coisas sólidas em nosso caráter.

Guardei para o fim a leitura de poesia, que conheci muito tarde, acho que por falta de tempo. Ela faz parte de mim agora. Pedro Du Bois é meu companheiro inseparável, por que não posso abandonar quem diz: “Ouço o vento/invisível: tenho medo/do vazio/do mundo/ (das sentenças)/tenho medo/da minha sentença”.  eu resisti assim cantando (título publicado assim, em letras minúsculas) é um livro de poesias de Paulo Monteiro, da sua fase juvenil, que traduziu em versos meu lado político, transgressor, voraz, revoltado. Ocupou-me por alguns dias para que eu conseguisse elaborar o momento delicado em que vivemos, reeditando, em muito, o que vivemos após l964, quando fomos tomados pelo golpe militar.

E assim, lendo, escrevendo, vamos conseguindo algum equilíbrio e prazer, aliás, muito prazer. E nossa inquietação aumenta. E nossa fome de leitura também. E nossa necessidade de deitar a cabeça no conselheiro de todas as noites oportuniza um encontro com frestas de sabedoria, de entendimento, de apaziguamento. E assim acontece o discernimento para ajudarmos nosso filho que sofre, nosso neto a gostar de ler, nossa amiga que não está conseguindo pensar. Aprendemos a conversar, a ouvir, e, principalmente, a ter um sentimento de compaixão conosco mesmos, por que passamos a entender que estamos sempre aprendendo, sempre mudando, sempre solitários, mesmo convivendo com muitos amores.

A solidão inerente à condição humana é fértil, desde que nos alimentemos de arte em todas as suas formas, desde que nos deixemos impregnar pelo outro, tão rico. O outro é a representação do mundo todo, por que contém tudo o que somos e só somos algo, quando nos vemos no outro como constituintes de nós. 

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