Diário da Manhã

Aquele trabalho que ninguém vê

Existe uma fatia de povo que é especialmente feliz. Estou falando daquelas pessoas que compõem associações, confrarias, grupos de voluntários e que representam a inteligência pulsante de toda cidade humanizada, bonita, arrumada de forma a que tudo funcione para que todos tenham direito a usufruir dos espaços físicos e culturais.

Os voluntários trabalham duro e de graça, dedicam-se a longos planejamentos, projetos difíceis de construir dentro de normas absurdamente exigentes, enfrentam resistências de onde menos esperam, sofrem críticas, reformulam, procuram contemplar a maioria das demandas.  E ainda assim movimentam-se felizes, por que comemoram cada avanço, cada passo rumo ao que cada instituição persegue com a tenacidade peculiar de quem acredita no que faz.

Frequentamos a antiga estação ferroviária sem imaginar como ela foi limpa, quem a enfeitou com obras que refletem o que se faz nas artes plásticas, perambulamos em meio a exposições sem sequer pensar que alguém carregou peso e que uma vernissage demanda trabalho braçal prévio de dias. Muitos têm seu trabalho formal e é nas horas “de folga” que criam, carregam, limpam, ajeitam, planejam, pensam no que é mais bonito e adequado a quem vai usufruir de tudo aquilo.

As minifeiras de livros demandam uma movimentação incrível, por que alguém carrega os livros, as estantes, arma barracas, fica exposto ao frio, à chuva, ao sol e por que não dizer, à monotonia de constatar pouco interesse por livros. O que falar então da Feira do Livro, esse empreendimento gigante! Alguém pode avaliar a demanda daquelas doze horas de trabalho dedicadas à cultura, meticulosamente pensadas para que todo mundo tenha acesso à música, à história, à literatura e ao conhecimento em geral. E aquele trabalho de, de novo, carregar, arrumar, expor, agradar, fazer dar certo. Alguém acha pouco?

Às vésperas da Jornada Nacional da Literatura, há um contingente que escreve, inscreve seus trabalhos, prepara lançamentos, prepara a cidade por onde a Jornada deverá passar, escancarando uma organização incrível e o trabalho de milhares de pessoas envolvidas no que dá um apelido pomposo à cidade. Somos a Capital Nacional da Literatura e precisamos cada vez mais fazer jus ao que isso representa.

Há um exército de voluntários que viabiliza a cada dois anos o Festival Internacional de Folclore composto por pessoas incrivelmente felizes, por apoiar tanta beleza e animação. Nenhuma administração pública poderia realizar um evento desses, sem o brilho e a alegria dessa gente. Só voluntários movimentam a cultura com essa grandiosidade.

Todos sentimos não ser considerado um trabalho sério e árduo os atos de escrever, pintar, esculpir, fotografar, desenhar, doar tempo, dinheiro, suor, lágrimas.  É impossível ignorar as decepções ligadas à má vontade de quem está lá para sabotar, reclamar, desqualificar tanto trabalho. Esses não sabem que a vontade de fazer bonito é inabalável e que tanto blá, blá, blá negativo impulsiona e mostra quem é quem em meio a tanta satisfação.

O voluntariado precisa de espaço em todos os sentidos, inclusive de espaço físico. A Estação Ferroviária é o espaço da cultura por excelência. Ela deve abrigar um museu da ferrovia, para que o povo conheça a importância dela no desenvolvimento da nossa cidade, para que o legado seja preservado da forma que merece. Deve ser berço de manifestações artísticas e culturais em todas as suas formas e, acreditem, ela permanecerá viva, dinâmica e nas mãos dos que merecem usufruir dela.

Você quer ser feliz? Você quer ter amigos de qualidade? Você quer ser corresponsável pela humanização da nossa cidade? Voluntarie-se! Não há satisfação maior!

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