Diário da Manhã

Mulher: a complexidade e a dor do processo de mudança

Quando Cláudia Rocha Crusius, José Ernani de Almeida, Josiane Petry Faria, Mariane Loch Sbeghen, Marina de Campos e eu mergulhamos na história e na realidade para elaborar o livro “É pensando nos homens que eu perdoo aos tigres as garras que dilaceram” que trata da violência contra a mulher, foi possível constatar, duramente, a complexidade que envolve essa antiguíssima e ao mesmo tempo atualíssima e trágica questão.

Num mundo em permanente movimento raramente encontraremos um ponto de curva para a mudança que não produza intensa dor antes de trazer e consolidar o novo. Tem sido assim e, infelizmente, continuará por muito tempo: a dialética corrói, como ácido sulfúrico, nossas entranhas antes de produzir a nova síntese.

Como produto de construção histórica – por isso possível de desconstrução, como afirma a psicóloga paulista Tania Pinafi – a violência de gênero pressupõe, para ser extirpada do convívio social, nova postura de todos, inclusive dos homens, óbvio

Volto ao tema pela informação recente de que 30% dos brasileiros (as brasileiras incluídas) afirmam que a mulher tem culpa quando estuprada, algo persistente em muitos locais do Planeta independente de posição econômica, social, etnia, ideologia. Ao ler isso lembrei a China entre 1500/1700 onde “havia, quase sempre, o consenso de que o suicídio era a melhor solução para a mulher estuprada que perdera a virtude.” Em tal caso, o governo pagava as despesas do funeral e providenciava uma placa atestando que a mulher preferira a morte à desonra. Sacaram a doentia sutileza?

Mas o estupro, que é a forma mais aguda e brutal dessa violência é só a parte visível desse drama que ainda se desdobra, no dia a dia, em rotinas também penosas, doloridas, desgastantes, aflitivas que demoram a ser captadas e vão sugando a seiva do vigor da vida das mulheres.

Nas horas do dia, nos dias da semana, nos meses do ano, onde a vida segue seu tranco ocorrem combates desestabilizadores entre o novo que sempre chega, queiramos ou não, e o velho que muitas vezes teima em não ir embora. E o preço, em sofrimento, não raro, é alto. E, diga-se, para todos, independente de sexo.

Nessa dinâmica de movimento ininterrupto da história mulher que deve ou deseja encarar o novo (que às vezes chega avassalador) logo sente que o status quo vai se tornando insuportável e acaba sofrendo muito. É esse sofrimento de quem está em transição entre esse novo incerto que teima em chegar e esse velho desconfortável que não quer ir embora.

E tudo tem também custo emocional alto, pois sempre leva a conflitos e até separação de casais com as sequelas doloridas conhecidas. Profissionais de diferentes áreas que atendem mulheres – especialmente médicos, psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais confirmam dramas terríveis. Eis outra dimensão da questão: quando só uma parte muda deve-se aguardar a acomodação do terremoto para reencontrar novo ponto equilíbrio. Para quem tiver garra – isso em regra nunca falta às mulheres – encontra, um pouco mais cedo ou um pouco mais tarde, porto seguro adiante.

Assim, se a brutalidade é o fator visível das distorções desse mundo de caos, o bate-estaca diuturno também configura sofrimento a mulher (e os seus!) se posta diante das forças da mudança.

Era e continua sendo difícil...

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