Falta de sincronismo que atrapalha a fluidez

“Arranca e para” no trânsito é registrado em ruas transversais da Avenida Brasil diariamente. O Diário traz explicações sobre um problema recorrente que surge de uma necessidade de oferecer fluxo à via mais movimentada da cidade

Fotos: Matheus Moraes/Diário

Compartilhe

A frota de mais de 125 mil veículos cadastrados em Passo Fundo, de acordo com o Departamento Estadual de Trânsito do Rio Grande do Sul (Detran/RS), além de cerca de 20 mil veículos considerados flutuantes, de municípios da região que utilizam serviços diários da maior cidade do Norte do Estado, faz com que o fluxo seja intenso no município. Mas outra questão chama atenção dos motoristas que trafegam diariamente pelas principais ruas e acessos da cidade: a sincronia dos semáforos e a continuidade do fluxo na região central.

O assunto está na pauta dos motoristas há anos. Em anos anteriores, já se comentava sobre a “onda verde”, em que o trânsito apresentaria fluidez em uma via de grande extensão com semáforos todos abertos até determinado tempo. No entanto, a realidade ainda está longe do que se projetava. Na prática, quem sente dificuldade em se locomover de veículo pela região central percebe o arranca e para em razão da falta de sincronia de semáforos em algumas vias, sobretudo as transversais da Avenida Brasil.

A Brasil é a que mais tem passagem de veículos na cidade. As demais ruas transversais, em sequência, têm passagem quase que semelhante a uma das vias da Brasil. Por isso que existe esse acúmulo de veículos que muitas vezes não se consegue conciliar o tempo todo, João Darci Gonçalves da Rosa

O funcionário público João Roberto Vaz dos Santos é a prova viva dessa realidade no trânsito. Segundo ele, não existe fluidez nas ruas transversais da Avenida Brasil, como o caso da Rua Bento Gonçalves, Avenida Sete de Setembro, Rua Coronel Chicuta, entre outras, sobretudo na região central. “É um problema diário. Como a gente anda muito na cidade, de um lado para o outro, percebemos essa situação. Geralmente liberam a Brasil, mas no caso da Bento, quando chega na esquina com a Morom, já tranca de novo. A Chicuta é a mesma coisa. Na Chicuta, você passa pela Independência, quando chega na Morom, o sinal fecha. Dependendo da situação, conseguimos passar a Morom, mas já fecha na Brasil. Em horário de pico é muito mais complicado”, reclama.

FLUIDEZ NA AV. BRASIL x ATRASO NAS TRANSVERSAIS

A questão tem respostas da Secretaria de Segurança Pública, que cuida do planejamento do tema na cidade. De acordo com o secretário João Darci Gonçalves da Rosa, existe um sincronismo padrão com prioridade a Avenida Brasil, principal via da cidade, além das suas paralelas, como Paissandú, Uruguai, Morom. Segundo ele, nos cruzamentos das vias transversais com maior movimento, em ordem, Avenida Sete de Setembro, Rua Coronel Chicuta, Rua Benjamin Constant, Rua Fagundes dos Reis e Rua Bento Gonçalves, não possuem total sincronização porque atende à demanda de fluidez da Avenida Brasil. “Nós buscamos a sincronização da Avenida Brasil. Não conseguimos efetuar a sincronização atendendo os cruzamentos dela, porque é muita passagem de veículos. Nós tivemos que fazer um sincronismo atendendo determinado sentido da Avenida, em determinados horários, com bom resultado. No outro sentido, o sincronismo acaba não sendo tão efetivo para não dar aperto nesses cruzamentos com outras ruas”, explica.

Atualmente, a Avenida Brasil, no sentido Centro ao Boqueirão, recebe a passagem de 16 mil veículos diários. O quantitativo é quase o mesmo das ruas transversais na região central, o que indica o problema. “A Brasil é a que mais tem passagem de veículos na cidade. As demais ruas transversais, em sequência, têm passagem quase que semelhante a uma das vias da Brasil. Por isso que existe esse acúmulo de veículos que muitas vezes não se consegue conciliar o tempo todo. Em via de regra, a Chicuta, a Sete, a Bento, o semáforo tem que atender. Claro que não vai ter um sincronismo total, mas não se pode andar uma quadra e parar na próxima. Se acontece isso, algo está errado. Tem que haver um sincronismo mínimo”, declara o secretário.

Em três semáforos seguidos nas ruas transversais à Avenida Brasil é comum não conseguir avançar em todos com sinal aberto

SEMÁFORO COMO PREFERÊNCIA AO PEDESTRE

O Coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Mobilidade Urbana (NEPMOUR) da Imed, professor Alcindo Neckel, defende que a sincronia até pode ser ajustada, mas que a prioridade deve ser o fluxo da via principal. Segundo ele, a solução seria realizar um estudo maior para entender o problema de casos de falta de sincronia nas ruas transversais. Além disso, ele cita que o semáforo tem por objetivo parar veículos para que pedestres possam passar. Portanto, em caso de deixar a via mais rápida e intensa com “onda verde”, poderia prejudicar o pedestre. “De repente necessitaria de estudo de mobilidade urbana maior em relação a sincronia. Nós temos uma quantidade grande de veículos e isso se torna um problema. Teria que achar uma solução para normalizar o fluxo, mas temos que lembrar que a sinaleira existe para os carros pararem e pedestres pararem. Com uma via com mais velocidade em relação ao fluxo, o pedestre pagaria por isso, porque teria pouca oportunidade de realizar a travessia”, argumenta Neckel.

O TEMPO NO TRÂNSITO NA PRÁTICA

O Diário da Manhã foi conferir na prática a sincronização dos 20 semáforos da Avenida Brasil de ponta a ponta, em um horário de pico e outro mais tranquilo. Desde o bairro Boqueirão até o bairro Petrópolis, vice-versa. Numa velocidade média de 50 km/h, no sentido Boqueirão a Petrópolis, às 13h, no horário de pico da região central, o veículo da reportagem parou em oito semáforos, sendo que em duas oportunidades, parou três vezes numa sequência de três semáforos. No total, foram 8 minutos e 9 segundos parados num total de 22 minutos de percurso.
Por outro lado, no sentido Petrópolis ao Boqueirão, em horário mais tranquilo, às 15h, o veículo parou em sinal vermelho em sete oportunidades, com um tempo total parado em semáforos de 5 minutos e 8 segundos. Dos sete semáforos fechados, em dois casos houve falta de continuidade de sincronia, com duas paradas em sinaleiras em sequência. Em outras situações, o veículo parou de duas em duas sinaleiras.

No total, entre ida e volta, o motorista perde cerca de 40 minutos para ir e voltar de toda a extensão da Avenida Brasil. Para estabelecer um comparativo, o tempo total é o equivalente a ir até municípios mais próximos, como Ernestina, a cerca de 30 quilômetros de distância, e Marau, também a cerca de 30 quilômetros, numa velocidade média de 80 km/h. Claro que, além dos semáforos, há de se considerar o tempo de parada no trânsito em razão de congestionamento (em algumas oportunidades), lombadas eletrônicas, casos de fila dupla etc.

REPORTAGEM EM VÍDEO

Leia grátis o jornal digital

Comentários
Diário da Manhã

Diário da Manhã - Todos os direitos reservados. All rights reserved ®