Luto: um momento de apoio, não de julgamento

Conforme especialista, o processo de lidar com a perda de um ente querido não segue uma ordem cronológica e pode se manifestar de diferentes formas

Foto: Divulgação

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Lidar com a morte é uma situação extremamente delicada, para a qual ninguém está preparado. O período do luto, de reorganização da vida a partir da ausência de um ente querido, pode ser enfrentado de modos diversos pela pessoa enlutada. Em alguns casos, há a necessidade de acompanhamento psicológico para o gerenciamento da dor ocasionada pela despedida. O essencial, contudo, é que a rede de apoio dessa pessoa ofereça compreensão e respeito ao sofrimento individual. A psicóloga e professora do curso de Psicologia da Universidade de Passo Fundo (UPF), Dra. Ciomara Benincá, esclarece como se dá o desenvolvimento desse processo e como os familiares e as pessoas próximas podem auxiliar o indivíduo que está em luto.

+Saúde Entrevista:

O que é o luto? Como esse período se caracteriza?
Primeiramente, é importante entender o luto não como um evento, mas como um processo, porque ele vai se transformando a medida que o tempo passa. O luto começa com uma perda significativa. Estamos falando, aqui, especificamente do luto por morte, mas existe também o luto por circunstâncias ou por situações, por exemplo: um casamento que termina, uma mudança de cidade, uma perda significativa de uma amizade, quando deixamos de ter contato com alguém muito importante, até uma aposentadoria pode ser um processo de luto, porque é a perda de um status. Luto é uma reação à perda. No caso da perda por morte, a reação inicialmente sempre será de choque, o que pode durar de minutos até meses. É quando a pessoa fica meio “fora do ar”, sem acreditar no que está acontecendo. É muito comum ouvirmos as pessoas dizerem que, no velório, não conseguiram chorar, justamente porque é como se ainda não tivesse “caído a ficha”. Ao ficar chocada, a pessoa pode ter diversas reações, desde a apatia, a raiva (de não se conformar com o que está acontecendo) até a profunda tristeza. Depois dessa reação de choque, começam a vir as fases, que não têm, necessariamente, uma organização cronológica. Não é algo que se diga: “vou viver a fase da negação, depois a da raiva para depois passar para a fase da aceitação”. Não é assim que funciona. Essas fases serão vividas muitas vezes durante muito tempo e o fato de já ter passado por uma fase não significa que a pessoa não irá revivê-la. Vou dar alguns exemplos: é muito comum a pessoa que está vivenciando uma situação de luto, por alguns momentos, negar que está passando por essa situação. Então, ela diz coisas como: “eu estou muito bem, isso foi um evento que aconteceu na minha vida, mas não me afetou”. Essa é a fase da negação do luto. Mas, mais adiante no mesmo dia, essa pessoa pode dizer: “tenho muita raiva do que aconteceu, porque existem tantas pessoas ruins no mundo ou existem tantas pessoas que não merecem viver, e Deus levou justamente o meu ente querido, que só fazia o bem”. Aí, temos a fase da raiva. Depois, pode aparecer a tristeza, com pensamentos do tipo: “a vida não tem mais graça”, “eu não tenho mais vontade de sair”, “eu não me conformo com essa perda”, “não vou conseguir viver sem essa pessoa”. Então, essas fases vão se sucedendo até o momento em que a pessoa consegue encontrar maneiras de continuar vivendo, consegue se projetar no futuro, começa a elaborar essa dor dentro dela. Ou seja, aquele ente querido continua fazendo parte da sua vida, mas agora ele fica guardado dentro de você em forma de saudade.

Psicóloga e professora do curso de Psicologia da UPF, Dra. Ciomara Benincá

O que seria indicado para uma família que está vivenciando esse período de luto devido à perda de um ente querido? Há algo que as pessoas mais próximas podem fazer para ajudar?
Essa é uma questão muito importante, porque as pessoas tentam ajudar com aquilo que elas acham que é indicado e, muitas vezes, não é. Uma coisa que se costuma fazer com as pessoas enlutadas é não permitir que elas falem daquilo. Então, a pessoa começa a dizer “estou muito triste, meu filho faz muita falta” e os outros respondem “não fale disso, ele não ia gostar de te ver chorando”. Não é assim que funciona. Quando as pessoas falam é porque elas precisam falar. É preciso ouvir o que elas estão dizendo. Elas precisam manifestar a sua dor, seus sentimentos, até o momento em que isso vai, digamos assim, se acomodando dentro delas. Muitas vezes, a pessoa enlutada não precisa ouvir nada, ela precisa falar. Se eu for capaz de estar ao lado de alguém que sente essa dor e mostrar para ela que eu estou ali e não a estou julgando por essa dor, estarei fazendo muito por ela. Deixá-la sozinha, isolada ou não deixá-la falar são as piores atitudes que alguém pode ter com uma pessoa enlutada. Talvez, essa pessoa não esteja tão animada quanto a gente gostaria ou não queira sair tanto de casa. Vamos respeitar isso, o que não significa abandoná-la, mas aceitar esse momento em que ela precisa de rituais para poder enfrentar esse luto – rituais que podem ser religiosos, como buscar uma igreja ou uma fé; familiares, como olhar fotos e falar do falecido; ou rituais bem pessoais, como querer ficar mais recolhida.

No caso de pais que perderam o(a) filho(a), é comum ouvirmos falar na dificuldade em se desfazer das coisas do(a) filho(a), dos objetos pessoais dele(a), de entrar no quarto e alterar o ambiente que está do jeito que ele(a) deixou. Qual o conselho nesse caso? Esse apego atrapalha o processo do luto?
Esse é um processo individual, não devemos interferir no ritmo do desapego. A casquinha de uma ferida não deve ser removida antes que haja cicatrização, sob pena de uma complicação, infecção ou de ficar uma cicatriz muito feia. O luto é mais ou menos assim. Se os pais estão apegados às coisas materiais daquele filho, mantêm os objetos e o quarto dele quase como um santuário, é porque eles ainda estão precisando disso. Eles só vão se desapegar no momento em que eles não precisarem mais desse material para ter a presença do filho, ou seja, quando esse filho estiver constantemente presente dentro deles. Mas isso é um processo. Quando eles se sentirem preparados para se desapegar das coisas do filho, eles farão. Precisamos respeitar, porque não há prazo para isso. Haverá o tempo certo. O que não se pode fazer é acelerar esse processo, fazer com que os pais se desfaçam ou doem as coisas do filho, porque o rebote dessa ação pode ser muito pior. A sensação de que eles estão abandonando o filho, de que nunca mais terão as coisas dele de volta, é terrível. Isso não pode acontecer.

Qual o papel da psicologia nesse contexto? Como o especialista pode contribuir com esse processo?
O psicólogo vai auxiliar no sentido de poder indicar os caminhos em prol do enfrentamento e da elaboração do luto. Nem sempre esse luto será totalmente elaborado. Haverá situações, especialmente quando se trata de luto pela perda de um filho, em que os pais não necessitam da elaboração completa, mas aprendem a conviver com essa perda, aprendem a reorganizar a sua vida e o seu futuro sem a presença material daquele filho, mas com a sua presença simbólica. Ele fez parte da vida daquela família, é uma referência para o futuro dela e, dependendo da família, se for mais ou menos espiritualizada, haverá a crença de que ele continua presente ali e que, um dia, ocorrerá um reencontro.

Há algum período ideal para que se busque o auxílio profissional ou essa é uma questão individualizada?
Se a família se sentir com muita dificuldade, ela pode procurar um psicólogo imediatamente após a perda. Ela pode permanecer sendo assistida por esse psicólogo até quando ela necessitar. Não existe um período para dizer: agora, sim, você deve procurar ajuda. Se a pessoa desejar, os psicólogos estão plenamente capacitados para fazer esse acompanhamento e ajudar essa família a se reorganizar sem a presença física daquele ente querido.

Com ou sem a ajuda profissional, o essencial, então, é que haja o respeito e o entendimento que as pessoas reagem de maneiras diferentes frente a uma perda. Certo?
Exatamente. Eu não tenho como saber o quão destroçada está aquela pessoa simplesmente pela reação que ela está tendo naquele momento. As reações não são cronologicamente determinadas. O que existe é uma dor terrível e uma tentativa da estrutura psíquica de encontrar um equilíbrio. Pode ser que, neste momento, eu reaja com sensatez, mas que, daqui a um ano, eu entre em uma depressão. Essas reações não são previsíveis, não podemos cobrar das pessoas um padrão de comportamento, algo como: tem que chorar no velório e depois tocar a vida. Não é assim! Às vezes, parece que a pessoa está enfrentando muito bem uma perda importante e, no ano seguinte, o gato morre e ela entra em depressão por isso. As pessoas vão dizer: “ah, não sentiu a perda do pai, mas sentiu a perda do gato”. Não, absolutamente. Ela apenas está revivendo sentimentos que ela manteve o controle absoluto naquela situação, mas que não foram resolvidos. Então, a qualquer perda, ela pode desabar novamente. Por isso, a importância de que esse processo seja acompanhado de perto pelas pessoas que amam esse indivíduo que está em sofrimento e, se for o caso, que ele receba o auxílio de um psicólogo.

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