O nascimento de uma mãe

Diagnóstico da Síndrome do Ovário Policístico não significa, necessariamente, que a mulher deve abandonar o sonho da maternidade

Fotos: Arquivo pessoal

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Era janeiro. O clima veranil que toma conta das paisagens e colore as peças de roupas nas vitrines aqueceu em Tainara o desejo da maternidade. Decidiu que era hora de afrontar a matemática, provando que a soma de um mais um pode, sim, ser igual a três. Para isso, despediu-se com ansiedade da última cartela do anticoncepcional e procurou o acompanhamento médico. Logo nas primeiras consultas, o susto: o diagnóstico de Síndrome do Ovário Policístico (SOP). “Eu não tinha ovulação, meus ovários não respondiam”, conta. Iniciou-se, então, o período de tratamento. Mesmo assim, não houve resposta. Nem no primeiro nem nos cinco meses subsequentes. “Não tinha retorno nenhum, eu já estava ficando apavorada com a questão da infertilidade”.

A mamãe Tainara Bernardi com o filho Matias, de quatro meses

A realização de exames de imagem, para verificar se havia ocorrido a ovulação, tornou-se rotina na vida de Tainara. A cada negativa, uma nova frustração. “Pensava nisso em todos os momentos, especialmente após três meses de tratamento, que era o período esperado para que o indutor de ovulação fizesse efeito. Eu me desesperei. Foi um período bem difícil, era todo mês aquela ansiedade”, recorda. Na época, Tainara já realizava acompanhamento nutricional e alimentava-se de forma balanceada. Contudo, diante dos insucessos nas tentativas de ovular, a nutricionista que a acompanhava solicitou novos exames e orientou um planejamento alimentar ainda mais rigoroso. “Me dediquei muito a esse processo, porque eu via, ali, a esperança de que eu pudesse reverter a situação. Quando fechou um mês dessa dieta mais restritiva, os meus dois ovários funcionaram”, vibra.

A confirmação de ovulação, algo tão comum para muitas mulheres, teve um significado todo especial. “Para mim, já foi uma felicidade enorme, porque caiu aquela ideia de que eu era infértil. De alguma forma, meu organismo estava respondendo e eu conseguiria ser mãe”. O atraso da menstruação, dias depois, indicou a possibilidade da gestação. Tainara fez um teste. Deu positivo. Não satisfeita, no mesmo dia, procurou outro laboratório e refez o exame. “Eu não acreditava que, no primeiro mês, já tivesse dado certo”, confessa. E deu. Novamente, positivo. Mais uma vez, aquela ansiedade. Dessa vez, sem medo.

A constatação de que o herdeiro começava a se desenvolver no ventre deu-se em dezembro do ano passado, com um clima muito semelhante àquele da descoberta da síndrome. Entre um verão a outro, uma mãe nasceu. Em julho, foi a vez do Matias. Não só a casa, mas, agora, o coração também estava completo. Aos 33 anos, Tainara descobriu um amor que até então desconhecia. “Houve momentos desesperadores. Eu me culpava muito por isso, por não conseguir engravidar. O meu esposo sempre me apoiou nesse processo todo. Agora, estamos vivendo um momento muito especial. Devido a tudo que eu passei, pelo medo de não poder ser mãe, tento aproveitar meu tempo com ele ao máximo. É um amor indescritível”, revela.

Francisco, de cinco anos, acompanhado da mamãe Aline Nunes Schmitz

As palavras para descrever o sentimento de gerar uma vida também escapam do vocabulário da Aline. A relação dela com a maternidade tangencia, em alguns aspectos, a história da Tainara. Também diagnosticada com a Síndrome do Ovário Policístico (SOP), ela sabia da possibilidade de encontrar dificuldades para engravidar. A partir da interrupção do uso do anticoncepcional, a expectativa era de que a gravidez só viesse cerca de um ano depois. Aline, na época com 25 anos, considerou o prazo justo. Era janeiro. Novamente, no verão. Ela, então, planejou-se para a chegada do herdeiro no ano seguinte. Só esqueceu de avisar o Francisco. “Foi um susto. Eu suspeitava de uma infecção urinária e, ao realizar o exame, o médico me disse que não havia infecção, mas uma bolinha. Eu fiquei sem entender: ‘como assim uma bolinha, doutor?’. Ele insistiu, disse que era uma bolinha com perninhas. Eu não entendi. Só me dei conta do que era quando ele falou que eu estava grávida”, lembra.

Aline não teve tempo de sentir medo de não engravidar. Mesmo quando recebeu o diagnóstico da SOP, aos 20 anos, não pensou que a maternidade fosse um sonho distante. Instinto materno, talvez. A única preocupação era seguir as orientações médicas e continuar o tratamento com uso contínuo da medicação. Sabia que o filho viria no momento certo, ainda que o calendário dele não coincidisse com o cronograma inicial dos pais. “Eu não imaginei que pudesse estar grávida, tanto que fui sozinha fazer o exame de imagem. Fiquei sem chão. Quando saí da clínica, parecia que era uma cidade totalmente diferente. Eu não sabia para onde ir”, relata, rindo. A felicidade parecia anestesiar as demais sensações. Aline ligou o marido, mas ele não atendeu. Só conseguiu compartilhar a notícia com ele à noite. Dali em diante, a vida nunca mais foi a mesma. “É uma sensação maravilhosa, é muito bom ser mãe. Descobri o que é o amor incondicional”, conclui.

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