Rio Grande do Sul tem maior taxa de suicídios do país

Estado tem dez casos para cada 100 mil pessoas. Passo Fundo é a segunda colocada em ocorrências no Brasil, com 12,8 registros per capita

Foto: Caetano Barreto | Diário

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Caetano Barreto   |      Isabella Westphalen

O suicídio, ato de autoinfligir qualquer tipo de agressão que leve intencionalmente à morte, é um assunto pouco discutido, o que o torna um dos vários temas que sofrem interdição cultural e religiosa, ou seja, um tabu. No jornalismo, então, essa repressão imposta internamente é ainda maior, e o suicídio é dificilmente noticiado, salvo exceções. Parte desse silêncio se deve a uma recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS), que sugere não divulgar esse tipo de óbito para evitar que isso possa influenciar a decisão de alguém tirar sua própria vida.

Mas um dado recente levantou um alerta: Informações do DATASUS revelam que o Rio Grande do Sul tem a maior taxa de suicídios do Brasil, com média de dez casos confirmados para cada 100 mil habitantes, e dos 20 municípios brasileiros que têm os mais altos índices, 11 são gaúchos. O maior expoente desses casos, Santa Cruz do Sul, registrou nos últimos dez anos uma média anual de dezesseis suicídios a cada grupo de 100 mil habitantes.

Passo Fundo divide a segunda posição com Patos de Minas, em Minas Gerais, com 12,8 ocorrências per capita. A média nacional é de 5,01 óbitos / 100 mil pessoas. Somente em Passo Fundo, em 2016 (data do último levantamento disponível), foram registrados 1.715 óbitos por causas evitáveis, e 27 se enquadram nas categorias consideradas suicídio. Na última década, o ano de 2015 foi o quando ocorreu o maior número de mortes desse tipo, com 35 registros, e a média passo-fundense, no período de 2006 a 2016, é alta: 29,3 suicídios dentro da medianiz de 1,6 mil mortes anuais de causas evitáveis.

Esses dados são do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde. Para esses levantamentos, foram considerados os óbitos por causas evitáveis de pessoas de 5 a 74 anos registrados segundo o CID-10 (Classificação Internacional de Doenças-10) como lesões autoprovocadas voluntariamente (categorias X60-X84), fatores escolhidos para a identificação e classificação do óbito como suicídio. Para cálculo do número de suicidas per capita, foram recolhidas informações disponíveis no DATASUS, que utiliza fontes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Problema de saúde pública

A OMS reconhece o suicídio como uma prioridade de saúde pública. Pelos dados da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), a cada 40 segundos, uma pessoa se suicida no mundo, e a cada ano, cerca de 800 mil pessoas tiram a própria vida e um número ainda maior de indivíduos tenta suicídio. Para as organizações, cada suicídio é uma tragédia que afeta famílias, comunidades e países inteiros e tem efeitos duradouros sobre as pessoas deixadas para trás. O suicídio ocorre durante todo o curso de vida e foi a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos em todo o mundo no ano de 2016.

O Ministério da Saúde indica que exposição ao agrotóxico, perda de emprego, crises políticas e econômicas, discriminação por orientação sexual e identidade de gênero, agressões psicológicas e/ou físicas, sofrimento no trabalho, diminuição ou ausência de autocuidado, conflitos familiares, perda de um ente querido, doenças crônicas, dolorosas e/ou incapacitantes, entre outros podem ser fatores que vulnerabilizam, ainda que não possam ser considerados como determinantes para o suicídio. Sendo assim, devem ser levados em consideração se o indivíduo apresenta outros sinais de alerta para o suicídio.

“Esse número, no mínimo, nos chama para um trabalho preventivo”

Diante dos números, a coordenadora do setor de saúde mental da Secretaria de Saúde de Carazinho, Valéska Walber, afirma que é preciso ter um olhar mais cuidadoso com a ansiedade, depressão e fatores comportamentais, pois ressalta que um quadro de depressão não é “frescura”. “Esse número, no mínimo, nos chama para um trabalho preventivo. Não podemos desconsiderar esse tema, temos que nos debruçar sobre ele”, relatou Valéska.

Inclusive, a psicóloga afirma que é preciso prestar muita atenção nos adolescentes e jovens, pois a incidência de suicídio na adolescência vem aumentando, também ressaltando esse fator no outro extremo, que é da terceira idade. “É importante que a gente não banalize os sintomas, que é frescura ou que passa, a depressão é uma doença silenciosa, que muitas vezes se confunde com outras crises e não é tratada adequadamente, podendo levar ao suicídio”, relatou a coordenadora, que ainda reforça que existem inúmeros fatores que influenciam e trazem o suicídio como uma “saída”, quando na verdade a pessoa precisa é de tratamento.

O cuidado com a saúde mental é primordial para que tenhamos uma vida saudável, em todos os aspectos. Para Valéska, existe o fator cultural de que as pessoas não prestam atenção nisso, pois segundo ela, não existe saúde sem saúde mental. “A OMS já nos diz, se não prestarmos atenção em como nos sentimos, se estamos desgostosos com a vida que levamos, não estamos bem de saúde”, frisou a psicologa, que complementa que a busca por ajuda profissional e uma intervenção adequada nem sempre é feita pois as pessoas vão deixando para depois e negligenciando suas tristezas. “Tem gente que tem a sensação de que isso não é tão importante, mas é algo que define uma vida, muitas vezes. Nem todo depressivo é suicida, mas a maior parte dos suicídios está ligada a quadros de depressão”, reforçou Valéska.

 Sinais

Segundo Valéska, a depressão começa com sintomas que podem se confundir com tristeza ocasional, afinal, todos temos momentos tristes e desafiadores, porém, é preciso averiguar até quando dura esse quadro. “Na depressão isso se excede, são alterações de sono, de apetite, na sociabilidade, gerando um retraimento social, a memória pode ficar prejudicada, enfim, são sintomas que mostram como a regulação do humor está comprometida”, explicou a psicóloga.

Sobre o apoio do sistema de saúde mental de Carazinho, a coordenadora afirma que existem diversas possibilidades de intervenção e ajuda, com psicólogos, psiquiatras, clínicos, assistentes sociais, agentes de saúde mental, oficineiros, enfermeiros, entre outros, dando a possibilidade para que a pessoa seja ouvida e ajudada a encontrar novas possibilidades. “Temos os Caps, que tem uma equipe multidisciplinar e dentro do centro de atenção temos grupos de acolhimento, consultas, nos quais a comunidade pode ter acesso gratuitamente”, salientou Valéska.

Segundo o site do Ministério da Saúde é ideal encontrar um momento apropriado e um lugar calmo para falar sobre suicídio com essa pessoa, e caso haja um perigo imediato, o ideal é não deixar a pessoa sozinha, e evitar o acesso a meios para provocar a própria morte (por exemplo, pesticidas, armas de fogo ou medicamentos) em casa. Por mais que pareça redundante, a OPAS reitera que o fator de risco mais relevante para o suicídio é uma tentativa anterior.

Onde buscar ajuda

  • CAPS e Unidades Básicas de Saúde (Saúde da família, Postos e Centros de Saúde).
  • UPA 24H, SAMU 192, Proto Socorro; Hospitais
  • Centro de Valorização da Vida – 188 (ligação gratuita)
  • Também é possível acessar o chat no site do CVV.

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