Um símbolo de renovação

Projeto Borboletas Pela Vida sinaliza locais em que jovens perderam a vida para chamar a atenção das pessoas sobre a importância da conscientização no trânsito

Foto: Daniele Freitas/ Diário

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A avenida mais movimentada da cidade. Por ali, milhares de veículos trafegam todos os dias. No vai-e-vem entre um afazer e outro, o trajeto parece quase automático. Ponto próximo à Estação Rodoviária de Passo Fundo, o cruzamento entre a Avenida Brasil e a rua Ângelo Pretto é local de movimento, de passagem, de pessoas, de histórias. Uma delas, inclusive, está gravada ali. Talvez, a maioria dos transeuntes, na ânsia da correria cotidiana, sequer tenha reparado. Ou, se reparou, não absorveu seu significado. E o sentido da borboleta branca que está ali, desenhada no asfalto, requer mesmo mais que um simples olhar superficial. Não é apenas a representação de mais uma vítima da violência no trânsito, mas o marco simbólico de uma existência. O Victor é muito mais que uma estatística.

A história da auxiliar contábil Ângela Maria Finatto Stein, 44 anos, é compartilhada por tantas outras mães. Órfãs, elas precisam encontrar forças para lidar com a partida prematura dos filhos. Logo após o acidente que vitimou o estudante Victor Finatto Buffon, na época com 17 anos, a família pendurou uma foto do herdeiro no poste próximo ao local da colisão. Era uma forma de manter viva a memória de Vitinho. Pouco tempo depois, assistindo a um telejornal, Ângela descobriu o trabalho realizado pela Fundação Thiago Gonzaga, sediada em Porto Alegre. Naquela momento, a história deles se cruzou com a de Diza Gonzga, cujo filho que dá nome à instituição também foi vítima do trânsito. “Ela foi um marco para nós nesse processo de luto. Logo que mandei um e-mail, a Diza me respondeu na sequência. Trocamos telefones e ela me ligava semanalmente, até que surgiu a oportunidade e ela pediu se a gente tinha interesse de ir para lá conhecer a Fundação. Foi em um sábado pela manhã. Fomos, conhecemos ela e a partir daí mantemos contato com frequência”, conta Ângela.

Já vai fazer três anos do acidente, mas dói como se fosse hoje. É uma dor que nunca vai passar. (Ângela)

A visita à Porto Alegre também marcou a realização de uma homenagem à Vitinho e outros jovens que perderam a vida no trânsito. Com o nome registrado em uma placa de mármore, os pais sentiram que a história do filho não seria esquecida. “Na ocasião, pudemos conversar com pais que estavam na mesma situação que a gente. Foi um dia triste, porque choramos muito, mas conversar com aquelas famílias que estavam tendo a mesma dor que a nossa foi muito importante. Até o meu filho, Marcelo, de 11 anos, voltou de lá mais forte”, recorda.
A lembrança, contudo, não ficou restrita à capital dos gaúchos. Em solo passo-fundense, a memória de Vitinho também perpetuou-se. Neste ano, o jovem aspirante à agrônomo integrou o projeto Borboletas pela Vida, mantido pela Fundação Thiago Gonzaga. “Antes, como não tínhamos acesso à matriz, improvisamos uma borboleta pequena no local. Em agosto, a Diza veio para cá e, com a autorização dos órgãos municipais, pintamos a borboleta oficial, a grande. É um marco para não esquecer o que aconteceu. As pessoas dizem ‘toca a vida’, mas não é bem assim. Perdemos parte da nossa família. O Vitinho era um menino bom, cheio de sonhos. Ver aquela borboleta ali é uma maneira de conscientizar todos que estão passando pelo local, especialmente os mais jovens”, reforça Ângela.

A borboleta significa o renascimento, a vida nova, a renovação. Para os voluntários do Projeto, ela é considerada um instrumento silencioso e permanente de conscientização. Na avaliação de Ângela, a ação auxilia a lidar com a dor provocada pela perda do filho. “Muitos não sabem o que significa aquela borboleta, mas precisamos divulgá-la. É um pedido de conscientização no trânsito, para que outros pais não passem pelo que nós passamos. Já vai fazer três anos do acidente, mas dói como se fosse hoje. É uma dor que nunca vai passar”. Para amenizar o sofrimento, a família tenta realizar os sonhos que antes eram do filho mais velho. Em cada ação, imaginam se era assim que Vitinho faria. Na casa, os porta-retratos eternizam a existência que, no coração dos pais e do irmão, jamais será apagada. “Para nós, a borboleta faz com que ele não seja só mais uma vítima, mais uma estatística esquecida. Muitos pais vieram nos procurar, pedir como que funcionava, compartilharam conosco a dor deles. Mesmo que, às vezes, eu me desespere e chore junto, o fato de estar ajudando outras mães, conversando com elas, é muito gratificante. Só quem passa por isso entende essa dor. É viver um dia de cada vez”, conclui.

Crença renovada
Este período do ano é especialmente difícil para a Ângela, para o Edgar e para o Marcelo. A proximidade do Dia de Finados, lembrado em 02 de novembro, coincide com as datas do acidente do Vitinho, 8 de novembro, e do aniversário dele, no dia 11. As festas de final de ano, momento em que as famílias tradicionalmente se reúnem, também traz à tona a saudade. “A gente sofre muito, passa um filme na cabeça”, lamenta a mãe. Para aliviar a dor, Ângela uniu as mãos em oração e pediu a Deus para sonhar com o primogênito. Queria abraçá-lo, recordar o seu sorriso, ouvir sua voz uma vez mais – mesmo que em pensamento. Queria um sinal.

Na semana passada, quando o marido retornou para casa após deixar Marcelo na escola, a surpresa. “O Edgar entrou no quarto dizendo: ‘corre, corre, vem cá ver uma coisa’! Eu me assustei, pensei: ‘o que será que está acontecendo, meu Deus?!’ Quando cheguei na sala, havia uma borboleta linda, grande, pousada em cima da foto do Vitinho. Era como se meu filho estivesse ali, como se ele dissesse: mãe, estou aqui, está tudo bem. Foi uma visita dele. Ficamos muito emocionados naquele dia, foi algo muito forte”, emociona-se.

Do luto à luta
Nas palavras de sua própria idealizadora, a Fundação Thiago Gonzaga e o programa Vida Urgente não nasceram em uma prancheta ou agência de Marketing. “Eles nasceram há 22 anos, quando eu perdi meu filho Thiago. Quem convivia comigo naqueles primeiros dias lembra que eu dizia: Vida Urgente. Eu não me conformava de que o meu filho, cheio de vida, não havia voltado para casa após uma festa. Eu comecei uma caminhada, mas não sabia ao certo como seria, se iria atingir os amigos do meu filho, o bairro ou Porto Alegre”, recorda Diza Gonzaga.

O programa desenvolvido pela Fundação inicia com as crianças na Educação Infantil e avança até os universitários, englobando pais e professores. “É um programa de educação, de mudança de comportamento. Nesses 22 anos, já tivemos conquistas muito importantes, como, por exemplo, a Lei Seca, que nós chamamos de Lei da Vida. Essa foi uma batalha forte da fundação. Também trabalhamos com peças teatrais – são quatro espetáculos, um para cada tipo de público -, com exposições, com palestras. Nossa missão é preservar a vida no trânsito, mas de uma forma que atinja o coração das pessoas. Não são só regras que temos que seguir no trânsito, temos que mudar nosso comportamento”, defende.

Os voluntários são conhecidos como a alma da Fundação. São eles que levam a bandeira de um trânsito mais seguro a diversas cidades gaúchas, como Passo Fundo, Erechim, Bento Gonçalves, Caxias do Sul e Santa Maria. Mais que isso: são portadores do principal desejo da Fundação. “Essa borboleta é o que a gente não quer, o que a gente luta para não acontecer. Ela sinaliza locais em que jovens perderam a vida para chamar a atenção das pessoas. Esses acidentes acontecem em locais que a gente passa todos os dias, nas avenidas que a gente circula, não só em uma curva perigosa na estrada. A vida não pode esperar, a vida é urgente”, pontua Diza. Atualmente, as borboletas voam longe: já estão espalhadas até fora do Rio Grande do Sul. “Temos que fazer essa borboleta voar para salvar vidas”.

Criada no dia 13 de maio de 1996 pelo casal Régis e Diza Gonzaga, a Fundação está sediada em Porto Alegre, mas conta com voluntários em mais de 200 municípios. Do luto pela morte do filho, surgiu a bandeira de luta para que outros pais não enfrentassem a mesma dor. “São 22 anos de trabalho, mais tempo do que o meu filho teve de vida. Eu não sou exemplo para ninguém. Eu perdi um filho. Infelizmente, tem milhares de pessoas que perdem filhos todos os dias em nosso País, pela violência no trânsito. O que eu fiz com o luto foi transformá-lo em uma fundação, uma causa, uma bandeira pela vida. Eu sempre digo: a Fundação existe para que não tenhamos mais Thiagos, para que outros jovens não percam a vida”, salienta.

O que eu fiz com o luto foi transformá-lo em uma fundação, uma causa, uma bandeira pela vida. (Diza)

Para auxiliar no enfrentamento do luto, a Fundação Thiago Gonzaga oferece grupos de apoio para pais. Ao todo, são mais de 600 famílias assistidas. “A perda de um filho é um luto que a gente não supera. É uma inversão da ordem da vida. Não que eu esteja medindo dor, mas eu diria que é um luto diferenciado. E, ali, nesses grupos, vemos o quanto isso é difícil. É aprender a conviver com a dor todos os dias”, destaca Diza. Mesmo com a dor da própria perda, Diza ainda encontra forças para dar apoio à dor de outras mães. No caso da Ângela, esse suporte foi fundamental no período do luto. “Eu tive uma grande sorte porque logo conheci a Diza e ela me ajudou muito. Ela costuma dizer que as histórias dos nossos filhos são muito parecidas. Eles tinham a mesma idade, ambos não voltaram para casa. O abraço que a Diza me deu assim que a conheci me encheu de energia. Ela é uma pessoa iluminada, de luz, escolhida a dedo por Deus para nos ajudar”, elogia.

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