Uma dor jamais superada

Em 2015, Ângela recebeu a pior notícia que uma mãe poderia imaginar: o filho mais velho, Vitinho, de 17 anos, havia sido vítima de um acidente de trânsito

Ângela com os filhos Vitinho e Marcelo / Foto: Arquivo pessoal

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“Mãe, não se preocupa que eu já volto”. E saiu. Mas não voltou. Quando Ângela reencontrou o filho mais velho, ele já havia se despedido dessa existência terrena. Ali, naquela sala fria, o reconhecimento do corpo do primogênito fez o mundo da família desmoronar. Vitinho, como era carinhosamente chamado, sequer chegou à maioridade, que seria celebrada três dias depois. Não pôde, igualmente, realizar o vestibular para o curso de Agronomia, marcado para o final de semana seguinte. Não teve tempo de concluir a formação superior para ajudar os tios a cuidar das terras no interior. Os sonhos do jovem apaixonado por motocross desfizeram-se pelo caminho, mais precisamente em um trecho da Avenida Brasil, principal via passo-fundense. A data nunca mais saiu da memória: oito de novembro de 2015. Todo dia oito é uma tristeza. Todo dia oito é um recomeço.

Natural de Rondinha, município distante cerca de 90 km de Passo Fundo, Ângela conheceu o marido Edgar quando Victor já tinha nove anos. “O Vitinho sempre dizia que o Edgar era o pai que ele queria”, lembra. Pouco depois, a família aumentou com a chegada do Marcelo. Inseparáveis, um irmão cuidava do outro – uma ligação que impressionava até os pais. A harmonia familiar foi abalada anos mais tarde, em 2015, quando Ângela gerava o terceiro filho no ventre. “No dia oito de outubro, sofri um aborto espontâneo. Estava no início da gestação. Eu chorava muito e o Vitinho me dizia: mãe, não precisa chorar, a gente tá aqui. E me abraçava”, recorda. Mal havia se recuperado da perda de um filho quando foi obrigada a lidar com a despedida prematura de outro. Exatamente um mês depois, Ângela acordou com a notícia de que Vitinho não havia resistido a um acidente de trânsito. No coração da mãe, a madrugada daquele domingo parece nunca ter fim. “Um amigo insistiu para que eles saíssem, mas o Vitinho não queria ir. Era meia noite e meia quando ele foi até o meu quarto e avisou que ia sair. Disse que às três da manhã estaria de volta. Essa foi a hora que me ligaram para falar do acidente. Quando vi meu filho novamente, ele já estava em um caixão”, relembra, com os olhos cheios d’água.

Era meia noite e meia quando ele foi até o meu quarto e avisou que ia sair. Disse que às três da manhã estaria de volta. Essa foi a hora que me ligaram para falar do acidente. (Ângela)

Vitinho morreu pouco depois de sair de casa, minutos depois da promessa de que, em breve, retornaria são e salvo para casa. Até hoje, a família tenta entender o que aconteceu. Todo dia oito, eles vão até o local do acidente, próximo à esquina com a rua Ângelo Pretto. Levam uma flor. Acendem uma vela. Os rituais ajudam a lidar com a dor. Em todo esse processo de luto, a união da família e o apoio dos amigos foram fundamentais. Após o velório, realizado na cidade natal, a mãe voltou para casa na quarta-feira seguinte, acompanhada por um familiar. “Não me deixaram sozinha em nenhum momento. Me apeguei muito à turma do Vitinho também. Ele iria se formar no Ensino Médio em janeiro. A escola, os professores, os colegas: todos me ajudaram. Fizeram uma homenagem linda para ele, soltando balões na quadra de esportes do colégio. Os colegas de aula do Vitinho são o meu braço direito. Até hoje, eles continuam indo me visitar, mandam mensagens, telefonam, conversam comigo. Quando abraço um deles é como se eu estivesse abraçando o meu filho. Eu fecho os olhos e sinto isso”, conta.

Os primeiros dias foram ainda mais difíceis. Na verdade, todos são. A diferença é que, com o tempo, a família aprendeu a (con)viver com a dor. “Na hora, deu uma revolta. Eu ficava me perguntando: Deus realmente existe? Por que Ele não me deixou pelo menos o bebê?”, relata Ângela. Nos momentos em que o sentimento de tristeza não cabia mais no peito e transbordava pelos olhos, era o consolo do caçula Marcelo que trazia o alento. “Dessa vez, era ele que me olhava e dizia: mãe, não precisa chorar, eu estou aqui”. Nesse período, Ângela também buscou auxílio psicológico para lidar com a perda do filho mais velho. “Precisei desse apoio. A gente acha que sozinha vai conseguir, mas não consegue”, explica.

Na hora, deu uma revolta. Eu ficava me perguntando: Deus realmente existe? (Ângela)

Marcelo sentia muito a ausência do irmão. Era incapaz de se imaginar como filho único. Teve um dia em que chegou em casa da escola e questionou a mãe se ele nunca seria tio. Chorou e foi para o quarto. Ângela tentou explicar que, se fosse essa a vontade de Deus e desse tudo certo, ela tentaria engravidar, mas a idade já não lhe permitia sonhar muito com a maternidade. Quinze dias depois, o teste deu positivo. Aos 11 anos, Marcelo ganhou um novo motivo para sorrir. “Quando contei que estava grávida, ele se agarrou na foto do Vitinho e disse: obrigado, meu irmão, obrigado, obrigado, obrigado!”, comove-se a mãe.

Marcelo foi o acompanhante escolhido para o exame de ultrassom. Quando o sexo do bebê foi descoberto, até o médico se emocionou com a alegria do caçula, agora promovido a irmão mais velho. “Eu sabia, meu irmão”, festejava ele. É um menino. Marcelo até já escolheu o nome: João Vitor. “Agora, estamos voltando a fazer planos, a sorrir de novo Acreditamos que é o Vitinho lá de cima ajudando a gente. É ele, de alguma forma, voltando pra nós”, sorri Ângela.

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