Diário da Manhã

Saúde

Uma nova chance

Autor: Daniele Freitas
Uma nova chance
Foto: Divulgação

Negativa familiar ainda é o maior impedimento para que novas vidas sejam salvas a partir da doação de órgãos

O índice é assustador: quase metade das famílias ainda rejeita a doação de órgãos no Brasil. Ainda que, no País, a fila de espera por um órgão possa chegar a cinco anos, a negativa familiar, infelizmente, não surge em casos isolados. Para se ter uma ideia, em dezembro do ano passado, cerca de 34,5 mil pessoas esperavam por um transplante. O órgão mais necessitado foi o rim (61,5%), seguido de córnea (29,7%), fígado (3,85%), pâncreas e rim (1,56%), coração (0,81%), pulmão (0,49%) e pâncreas (0,08%). Em 2016, mais de duas mil pessoas que estavam na fila por um órgão, morreram. Dessas, 82 eram crianças.

Segundo dados da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), divulgados neste mês pelo Ministério da Saúde, em 2016, as centrais estaduais de transplantes identificaram 10.158 pessoas que tiveram morte encefálica e que poderiam ser doadoras. Das quase seis mil famílias consultadas, cerca de 2,5 mil (43%) não deram a autorização necessária. Na região de Passo Fundo, o panorama também não é animador. O alto índice de negativa familiar é reforçado pelo neurocirurgião e coordenador da OPO4-RS, Cassiano Crusius, como o maior impedimento para que novas vidas sejam salvas. “Infelizmente, essa é uma situação muito comum. Por isso, salientamos a importância de que o desejo do paciente seja explícito durante a vida. É comum os familiares dizerem que, quando perdem um ente querido, além de lidar com a dor e a tristeza, precisam decidir como proceder com relação à doação. Essa decisão é facilitada se o paciente manifestou esse desejo à família”, destaca.

Tipos de doação

Segundo o neurocirurgião, é importante ressaltar que a doação de órgãos pode ser feita de duas maneiras. “Com os doadores vivos, que são aqueles pacientes em que não necessariamente há o diagnóstico de morte cerebral, e com os pacientes cadáveres, que já tiveram o óbito declarado através da morte cerebral. Esses, sim, são os doadores de múltiplos órgãos. É uma distinção importante de ser realizada para esclarecer de maneira nítida as diferenças”, reforça.

Morte encefálica

Todos os fatores que causem um aumento da pressão intracraniana podem levar a um quadro de morte cerebral. O Acidente Vascular Cerebral (AVC), por exemplo, é uma das causas mais frequentes, mas há outras patologias, como tumores cerebrais e traumatismos cranioencefálicos. O diagnóstico de morte encefálica é seguro e preciso, e, justamente por isso, pode demorar algumas horas. “Quando se há uma suspeita de morte cerebral, abre-se o protocolo de diagnóstico, composto pela realização de seis testes neurológicos para avaliar a viabilidade do cérebro e do tronco cerebral. Esses testes são feitos por um médico e, seis horas depois, os mesmos testes são refeitos por outro profissional que, necessariamente, não participou da primeira bateria de exames. Após as duas baterias de testes, há um terceiro exame complementar, que pode ser uma arteriografia, um doppler transcraniano ou uma angiotomografia”, explica o especialista. De acordo com ele, todos os exames são feitos para que o diagnóstico seja preciso, ou seja, uma vez atestada a morte cerebral, a certeza é absoluta. “Sabemos que é um protocolo demorado, mas não há como ser diferente, porque deve ser um processo extremamente rigoroso”, reforça.

Historicamente, após a Guerra do Vietnã e da Segunda Guerra Mundial, desenvolveram-se os respiradores mecânicos. A partir deles, foi possível verificar que, em alguns pacientes, o cérebro morria antes do coração. Em outras palavras, o diagnóstico de morte cerebral veio somente com o advento dos respiradores. “Ainda hoje, tem-se o paradigma de que a morte só ocorre após a parada do coração. E, às vezes, é difícil de entender: como pode a pessoa ter morrido se o coração continua batendo? Por isso, é também importante diferenciarmos o coma da morte cerebral. O coma é uma situação neurológica que pode ser reversível e a morte cerebral é um quadro neurológico irreversível. Essa é a principal diferença. Há pacientes que acordam do coma depois de 10 ou 15 anos, mas isso nunca vai acontecer no caso de morte encefálica”, esclarece.

Entrevista familiar

Inicialmente, todo o processo é comunicado à família e é realizada a entrevista familiar, na qual se expõe o diagnóstico e é indicada a possibilidade da doação de órgãos. Somente com a sua autorização dos familiares é que se iniciam os testes. “Todo doador passa por uma bateria de exames de sangue para verificar infecções ou doenças virais, como hepatites. Esses testes demoram certo tempo para ficarem prontos. Com o resultado, a equipe médica define se o paciente pode ou não ser doador. Assim, a Central de Transplantes, em Porto Alegre, recebe os resultados e direciona, de acordo com a lista de espera, quais serão os receptores dos órgãos. Tudo depende da logística da organização da lista de espera e, obviamente, da compatibilidade dos órgãos e do tipo sanguíneo”, elucida o médico.

Viabilidade dos órgãos

Conforme o neurocirurgião Cassiano Crusius, a doação só é possível após o diagnóstico de morte cerebral porque os órgãos necessitam ser perfundidos, ou seja, irrigados pelo sangue. “Por isso, precisamos ter o coração batendo para irrigar esse órgão e mantê-lo viável, porque, após a retirada do corpo do doador, há uma tolerância, que é o tempo de isquemia - tempo entre a retirada do doador e o implante no receptor. O rim pode ter um tempo de viabilidade de oito a dez horas de tempo, o fígado quatro horas e o coração duas horas”, destaca. Há alguns fatores considerados primordiais para o processo de retirada dos órgãos. “Temos que levar em conta, por exemplo, o tempo de deslocamento do receptor até o local onde será realizado o transplante. Não podemos, jamais, retirar um órgão aqui sem o receptor estar no bloco cirúrgico do hospital”, alerta.

A princípio, qualquer órgão interno – até mesmo a pele - pode ser doado. Na nossa região, os órgãos mais comumente doados são fígado e rins, já que coração e pulmões são mais difíceis de serem captados.  O tempo de funcionamento dos órgãos, após diagnosticada a morte cerebral, varia conforme alguns fatores, tais como idade do paciente e a doença que o acometeu. No entanto, qualquer  paciente pode fazer a doação das córneas e de ossos, mesmo após um tempo de parada cardíaca.

Dados

Em 2016, o HSVP registrou a doação de 32 córneas, 22 rins, 10 fígados e 43 segmentos ósseos, totalizando 107 órgãos - número maior que em 2015, quando foi contabilizada a doação de 36 córneas, 25 rins, nove fígados, um coração para válvula, um pâncreas e dois pulmões. Em relação aos transplantes, houve uma diminuição. No ano passado, foram realizados 32 transplantes de córnea, 17 de rins, 17 de fígado e 51 de tecido ósseo. Já em 2015, os números chegaram a 60 transplantes de córnea, 21 de rins, 12 de fígado e 50 de tecido ósseo.

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