Diário da Manhã

Saúde

Epidemia silenciosa

Autor: Daniele Freitas
Epidemia silenciosa
Foto: Divulgação

Série lançada pela Netflix reacende os debates acerca da importância de ações de prevenção ao suicídio
 

Um sofrimento intolerável. Um ato de desespero. Uma necessidade: prevenção. Falar sobre o suicídio ainda é tabu na sociedade. No entanto, nas últimas semanas, a epidemia silenciosa ganhou voz com o lançamento da primeira temporada da série 13 Reasons Why (Os 13 porquês), produzida pela Netflix. A história da adolescente Hannah Baker, que comete suicídio após sofrer uma sequência de abusos, tornou-se um dos assuntos mais comentados da internet com a hashtag #NãoSejaUmPorquê. Apesar de a série dividir opiniões entre os especialistas, especialmente no que tange à abordagem dada ao tema, a produção gerou um efeito imediato: o Centro de Valorização da Vida (CVV) - serviço voluntário e gratuito de apoio emocional e prevenção do suicídio – informou que os pedidos de ajuda já cresceram 100% desde que a série foi lançada, segundo dados do site UOL.
 

O Brasil registra, por ano, cerca de 10 mil suicídios. É como se 64 aviões com aproximadamente 150 passageiros caíssem anualmente no País sem deixar sobreviventes – isso considerando apenas as pessoas que conseguem se suicidar, sem contar as tentativas. No mundo, esse índice beira um milhão de mortes. “A percepção que o suicida tem é de uma situação da qual não há como fugir. Muitos pacientes que sobrevivem a uma tentativa de suicídio relatam que a dor psíquica é muito maior que a física: é a maior dor que ele sentiu na vida e não se compara a nada”, esclarece o psiquiatra Juliano Nogara. Por isso, ações de conscientização sobre a prevenção ao suicídio, como é o caso da campanha Setembro Amarelo, são fundamentais para reduzir as estatísticas.
 

Segundo o especialista, de cada cem pessoas, 17 terão pensamentos suicidas em algum momento da vida. Destas, cinco terão algum plano definido, três cometerão uma tentativa de suicídio e somente uma irá procurar ajuda. Se convertermos esses números para a realidade de uma cidade do porte de Passo Fundo, com uma população aproximada de 200 mil habitantes, equivale a dizer que 34 mil pessoas terão um pensamento suicida em algum momento da vida, 10 mil farão planos para isso e seis mil tentarão o suicídio. “O suicida, geralmente, relata um sofrimento intolerável, tão insuportável, que a solução, para ele, naquele momento, é terminar com a própria vida. Em 97% dos casos de suicídio, a pessoa apresenta um transtorno psiquiátrico e essas patologias têm sítio no cérebro, dentro da cabeça, portanto não são palpáveis”, destaca o psiquiatra.
 

Apesar dos altos índices, o Brasil está entre os 28 países, de um universo de mais de 160 analisados pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que possui estratégia de prevenção ao suicídio. No mês passado, o Ministério da Saúde anunciou um acordo de cooperação técnica com o Centro de Valorização da Vida para permitir o acesso gratuito ao serviço telefônico oferecido pela instituição. Por meio dele, pessoas com risco de suicídio poderão conversar com os voluntários da instituição através do telefone 188. A expectativa do CVV é implantar a ligação gratuita em todos os estados brasileiros até abril de 2020. “O sentimento do suicida é um sofrimento privado e praticamente insuportável, deixando os familiares e amigos da pessoa, muita vezes, com a sensação de culpa e com um nível de confusão e devastação que é difícil de explicar. Por isso, nós devemos falar sobre esse assunto. Conversar com alguém que está com pensamento suicida pode aliviar a angústia daquela pessoa, a tensão que ela sente, e esses pensamentos podem diminuir e até serem abolidos”, reforça Nogara.
 

Comportamento de contágio
A maior preocupação da Organização Mundial da Saúde (OMS) é com o índice de suicídios entre os jovens, especificamente na faixa etária dos 15 a 29 anos – considerada como grupo de risco. Para a Doutora em Psicologia e professora da disciplina de Psicologia da Morte do curso de Psicologia da Universidade de Passo Fundo (UPF), Ciomara Benincá, o debate sobre o assunto expõe os dois lados de uma mesma moeda. “Infelizmente, a gente só toma conhecimento de que o suicídio acontece quando ele se dá muito perto de nós. Muitas vezes, também não estamos qualificados para falar sobre o assunto. Existe uma legislação que impede a imprensa de divulgar casos de suicídio devido ao comportamento de contágio, porque o suicídio acaba sendo um comportamento altamente contagioso, especialmente entre os adolescentes, que ficam muito vulneráveis a imitar comportamentos suicidas já que eles passam por uma fase de conflitos, de transformação em busca de modelos. Por outro lado, não falar sobre o assunto inclui outro extremo, que é o da absoluta ignorância sobre o tema”, ressalta.
 

Em 13 Reasons Why, o suicídio é cometido justamente por uma jovem e os conflitos da adolescência se dão no âmbito escolar, evidenciando problemas como bullying, homofobia, assédio e machismo. Mas, acima de tudo, a trama se preocupa em frisar os sinais que devem ser percebidos para identificar quem pode estar passando por uma situação parecida. “O suicídio é um comportamento silencioso, é um drama muito solitário, justamente porque as pessoas têm dificuldade em tratar desse assunto. Ações de prevenção são essenciais para conscientizar as pessoas de que os casos de suicídio são absolutamente evitáveis. Estima-se que nove entre dez casos poderiam ser evitados se a pessoa tivesse sido atendida nas suas necessidades. A pessoa que comete o suicídio nem sempre quer a morte propriamente dita, mas o final de um sofrimento. Quando ela se mata, é porque ela está buscando um alívio para aquele sofrimento para o qual ela não vê saída e, geralmente essa, saída existe. Basta ela comunicar essa dor”, alerta a especialista.
 

Fatores protetivos
Mais importante que o tratamento - que varia de acordo com a patologia - é estar ciente dos fatores de risco para o suicídio. Pessoas depressivas (especialmente se elas moram sozinhas), solteiras, divorciadas ou viúvas (se associado a um transtorno mental); pessoas com doenças crônicas e incapacitantes; e quem possui familiares que já cometeram uma tentativa de suicídio estão inclusos no grupo de risco. Além disso, o abuso de substâncias (como álcool e drogas), a faixa etária e transtornos de personalidade também são sinais de alerta.
 

Segundo o psiquiatra Juliano Nogara, são fatores protetivos ter um bom suporte familiar, laços afetivos bem estabelecidos com família e amigos, ter um grau de religiosidade, ter filhos ou uma família estruturada. O mais importante, contudo, é reforçar a sensação de que a pessoa pertence a um grupo querido, que tem pessoas afetivas que convivem com ela. “Isso também vale para a inclusão em algum grupo social ou cultural, ou alguma atividade esportiva, que funciona como uma rede de proteção”, orienta.

Principais dúvidas
 

O suicídio é uma decisão individual que deve ser respeitada?
As pessoas que estão passando por isso, quase sempre, têm um transtorno psiquiátrico: 97% delas. Muitos desses transtornos alteram, de forma bastante significativa, a percepção e o entendimento da realidade, interferindo na vontade do paciente. O tratamento correto da doença, então, diminui o risco até que o desejo de morrer desapareça.
 

O suicídio pode ser uma característica genética?
Essa questão está relacionada aos transtornos psiquiátricos e, como a maioria dos suicidas possui esses transtornos, isso, sim, pode ter relação genética ou biológica – uns de forma mais clara, outros nem tanto – com a história familiar. Pode ser, também, uma questão ambiental, de como lidar com situações de estresse e o grau de alternativas que a pessoa consegue produzir com relação às dificuldades que são apresentadas. As pessoas reagem de forma diferente. Existe um fundo genético nos transtornos mentais, mas quanto ao suicídio não está tão clara essa questão.
 

Pessoas que ameaçam se matar não tentarão o suicídio?
Os suicidas dão sinais de que vão realizar uma tentativa, mas nem sempre os sinais são claros. Por exemplo: ideias sobre morte ou falar sobre vida após a morte de forma mais intensa. Uma pessoa que tem depressão e fala muito sobre esse tema, por exemplo, é um sinal de alerta. Os pacientes externam essas questões dias ou semanas anteriores à tentativa de suicídio para familiares, amigos e profissionais de saúde. Eles, frequentemente, colocam claramente esse desejo.
 

Quem nunca manifestou sinais pode tentar o suicídio?
Existe uma pequena parcela de pessoas nesse caso. São questões mais ligadas à impulsividade: quando a pessoa faz algo sem pensar. Existem algumas patologias, como a bipolaridade em sua forma mais grave, em que a impulsividade está mais presente. O transtorno de personalidade, como o Borderline, também tem essa característica. A pessoa comete o ato sem planejamento e até sem comentar o assunto. No entanto, a regra é que existe uma atmosfera que a pessoa vai criando na sua vida.
 

Quem tentou suicídio e sobreviveu está fora de perigo?
Nos primeiros dias após a tentativa, até mesmo durante a internação, o paciente deve ser acompanhado muito de perto, porque nesse período da melhora inicial ele continua em grave risco.

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