Diário da Manhã

Saúde

Uma vida que vale a pena ser vivida: dos a-braços maternos para adiante

Autor: Fonte externa

Artigo escrito pela psicanalista integrante do PROJETO - Associação Científica de Psicanálise Doris M. Wittmann dos Santos

Faço aqui uma homenagem, hoje, a tudo aquilo que vi e vivi nestes anos de maternidade e de trabalho clínico. Em tempos de “Baleia Azul”, sempre nos perguntamos o que faz com que alguém se perca nos perigosos recantos mortíferos da vida e o que impulsiona a abraçar a vida. Não é simples discernir, porque não existem fórmulas nem receitas e os fatores podem ser múltiplos.

O tanto que sabemos mostra que é justamente apoiado sobre os a-braços maternos que se montam todas as experiências posteriores de acolhimento. Antes que me joguem pedras, falo da experiência ligada ao que é essencial na função materna e não do modelo de mulher-mãe hollywoodiana dos anos cinquenta - estereotipo demonstrado insuficiente e que não se sustenta porque a maternidade nos exige muito mais! Exige cuidado e presença, mas exige também voz, opinião, enfrentamento e discernimento.

A criança deve experimentar que ocupa um lugar na vida do outro! Certamente, isto é um desafio nos dias de hoje: uma criança pode experimentar que ocupa, facilmente, um lugar narcisista no desejo da mãe, o desejo de que ela, criança, seja ou venha a ser isso ou aquilo. Contudo, o mais difícil é que nessa relação habite a possibilidade de que esse outro, o cuidador, a mãe, possa modificar a si mesmo, sua própria conduta no que tange atender às necessidades da criança - adequar-se, por um tempo, àquilo que necessita a criança. Sandor Ferenczi, psicanalista contemporâneo de Freud, escreveu um instigante texto em que aborda essa questão: “A criança mal acolhida e sua pulsão de morte”. É um texto de fácil leitura, mas muito profundo, e o Dr. Google, certamente, disponibiliza seu acesso.

É nos filhos que vemos retornar, eternamente, nossos próprios conflitos e o desafio é, ao invés de se culpabilizar e paralisar, elaborar, recompor-se, corrigindo rotas. Não estou falando em satisfazer as vontades majestosas e caprichosas de uma criança. Ao contrário, falo da perspectiva de frustrar quando é mais fácil ceder, apostando num vir a ser que anda no sentido contrário do reinado do imediatismo, da comodidade e da satisfação ilimitada de ambos.

Talvez, o mais difícil disto tudo seja o fato de que a colheita vem muito mais tarde do que deseja aquele que realiza o plantio, o que leva a termos que nos sustentar desde uma posição de constante revisão, tentando fazer nosso melhor, mesmo quando a resposta, demorada, ainda não nos alcança, mesmo quando as coisas vão mal. Resulta fácil falar de completude e perseverar idealizações sobre a relação mãe-filho, mas a realidade nos aponta uma perspectiva na qual o compromisso deve sobrepujar tal desejo.

“Nossa herança nos foi deixada sem nenhum testamento”, expressão do escritor francês René Char, que utilizo aqui no sentido de fazer uma alusão à ideia de um sujeito-mãe que se autorize a apropriar-se de suas próprias experiências históricas para metabolizá-las e transmiti-las, por fim, transformadas. A ideia de apropriação e transmissão é nosso desafio na criação dos filhos, seja quando voltamos os olhos para o futuro, seja para evitar uma pura repetição do passado ou de desejos equivocadamente satisfeitos numa tentativa de não precisar nunca abandonar a posição idealizada de completude infantil.

Os conflitos que os pais ou os filhos carregarão vida afora têm que ver com isso. Por isso podemos conceber o fenômeno digital da “Baleia Azul” como uma releitura moderna do “Flautista de Hamelin”, encantador que hipnotizou as crianças do povoado de Hamelin e as fez sumir. Isso somente pode ocorrer onde o vazio representacional entre os pais e os filhos ecoa. É quando o silêncio, em suas diversas variantes, fala mais alto. Uma das possíveis interpretações, moralista e literal, ao estilo alemão para esse conto seja que, quando os adultos se recusam a cumprir ou burlam suas responsabilidades, os filhos podem se perder. Isso é bem verdade, mas também é verdade que sermos pais suficientemente bons não garante resultados. Lamentável e surpreendentemente, a vida não é uma ciência exata.

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