Diário da Manhã

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Um crime que segue em silêncio

Autor: Redação Diário da Manhã

O dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes debate um crime que, infelizmente, poucas vezes é investigado

A data de hoje, 18 de maio, é marcada desde o ano 2000 como um dia de reflexão e combate ao abuso sexual de crianças e adolescentes. A data escolhida para o tema foi definida como uma tentativa de manter viva a memória de Aracelli Crespo, uma menina vítima de violência sexual em 1973 no Espírito Santo, em um caso que chocou o país. Neste dia, órgãos de defesa dos direitos das crianças como o Centro de Estudos e Proteção à Infância e Adolescência – CEPIA, e o Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente de Passo Fundo – Cededica, realizam ações de conscientização e prevenção a este crime, que é um dos mais chocantes em nossa sociedade.

Segundo Karine C. Bona, especialista em Psicologia Jurídica e Cognitivo Comportamental, e Gustavo M. O. Canabarro, Psicólogo Jurídico, o CEPIA já avaliou 4.600 crianças vítimas de abuso, e diagnosticou que a violência se faz presente em todos os contextos, e que o agressor, na maioria dos casos, é uma pessoa próxima à vítima. Uma nota do CEPIA resume que os violentadores geralmente não são indivíduos violentos, agressivos ou que fazem uso de força física, assemelhando-se mais com “lobos em pele de cordeiro”, figuras gentis e sedutoras. Andreia Stobbe, presidente do Cededica, afirma que um dos maiores entraves é o desconhecimento do crime. “As pessoas não sabem o que se enquadra como abuso, e quais são os sintomas que uma criança abusada apresenta”, afirmou Stobbe, em entrevista à rádio Diário AM, que complementou com outro grande empecilho na investigação: a indiferença frente ao delito. “As vezes a pessoa que vê ou que identifica um abuso fica indiferente, não quer se envolver naquele conflito, porque teme sofrer retaliações e uma série de outras questões, as vezes de cunho pessoal”.

Bonna e Canabarro salientam que “a ofensa sexual se caracteriza como um ato de violência praticado quando alguém se utiliza de uma criança ou adolescente para sentir prazer sexual, e a vítima dessa ação não for capaz ou não ter idade para compreender”. As vítimas levam como consequências, além dos danos físicos (por vezes irrecuperáveis), várias avarias psicológicas e comportamentais, como dificuldade em se relacionar, depressão profunda e isolamento, agressividade, excesso de culpa, baixa auto estima e, principalmente, perda da confiança em si e nos outros. “Passo Fundo é um município que tem um levantamento bastante significativo desses casos de abuso. Diferente dos municípios do interior, onde a comunidade é mais próxima, e os delitos acontecem de uma forma mais zelada e silenciosa”, relatou Stobbe.

Em alusão à data, o Cededica organiza hoje, no Auditório do Ministério Público, a oficina “Que abuso é esse?”. O evento é gratuito, e ocorre das 8h30min às 11h30min, e das 14h às 18h. A oficina é um trabalho em conjunto com o projeto Maleta Futura, do canal Futura, e a Promotoria Regional de Educação de Passo Fundo. “Haverá também um material desenvolvido pela Maleta Futura, que será distribuído aos participantes, para auxiliar a identificar crianças que estão sendo vítimas de abuso sexual, e os encaminhamentos que devem ser feitos para essas vítimas”, explicou Stobbe.

O caso Aracelli

O crime que inspirou a criação do Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes aconteceu em maio de 1973, na cidade de Serra, no Espírito Santo. Aracelli Cabrera Sánchez Crespo, uma menina de oito anos, desapareceu após sair mais cedo do colégio. Seu corpo foi encontrado seis dias depois carbonizado, e com marcas de espancamento e violência sexual.

Uma investigação comprovou que a menina foi estuprada, agredida cruelmente, e mantida dopada em cárcere privado por dois dias. Os acusados, após terem notado que a menina estaria tendo convulsões, levaram-na ao hospital, mas ela acabou falecendo pelo efeito da droga e da violência. O corpo da menina então foi recolhido novamente e,  após ter sido queimado por ácido corrosivo, foi abandonado em uma mata.

A crueldade do crime abalou o país. Os agressores foram identificados como pessoas muito influentes, de forte poder econômico e político na região. O caso foi marcado por uma grande opressão por parte dos indiciados, e levou à morte de várias pessoas, incluindo testemunhas e o delegado que conduzia a investigação. O jornalista José Loureiro publicou uma reportagem sobre a ocorrência na Folha de São Paulo, que foi proibida de circular por ação judicial. Dois anos depois, Loureiro escreveu um livro-reportagem intitulado Aracelli, meu amor, que também foi censurado e foi apreendido a pedido dos advogados dos agressores, sendo liberado para impressão vários anos depois.

Um dos acusados morreu, e os outros dois permanecem vivos. Ambos chegaram a ser sentenciados à prisão, porém foram soltos logo depois por decisão judicial. A família, conhecidos e testemunhas, até hoje preferem não falar no assunto, com medo de represálias. A rua onde a menina morava ganhou o seu nome. Os indiciados sobreviventes até hoje continuam impunes.

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