Saúde

Da quadra para a arquibancada

Autor: Daniele Freitas
Da quadra para a arquibancada
Foto Divulgação

A ruptura do ligamento cruzado do joelho obrigou a ex-jogadora Gabriela Be a interromper a carreira no voleibol aos 20 anos. Segundo especialista, na maioria dos casos, as lesões na prática esportiva podem ser evitadas

A paixão pelo voleibol começou bem cedo, logo aos cinco anos de idade. No projeto desenvolvido na AABB, em Passo Fundo, a acadêmica de psicologia Gabriela Parodi Be, hoje com 22 anos, deu os primeiros passos, ou melhor, os primeiros toques na modalidade. A carreira promissora, vislumbrada em cada gota de suor despendida em quinze anos de exaustivos treinamentos, foi interrompida de forma prematura: uma lesão no joelho afastou definitivamente a ponteira das quadras. Com o apoio das muletas e a força de toda a equipe, a atleta assistiu, do lado de fora das quatro linhas, à conquista do título inédito do Campeonato Gaúcho de Voleibol pela BSBios/UPF em 2015. Naquele momento, a partida final, tão arduamente disputada, representou um misto de alegria e frustração na vida da jogadora.  No entanto, a batalha mais desafiadora na vida da Gabi - como é carinhosamente chamada -, ainda estava por vir: mais do que por títulos, ela precisou lutar pela própria vida.

A cada ano em que a altura da rede aumentava, o sonho de ser uma atleta profissional também crescia. De categoria em categoria, a Gabriela passou pelas equipes do Colégio Círculo Operário e do SESC Passo Fundo até chegar ao Projeto Sacada Inteligente, do Colégio Notre Dame. Ali, sob o comando do técnico Gilberto Bellaver, que a acompanhou desde a infância, a jogadora iniciou uma caminhada recheada de títulos. “Peguei Seleção Gaúcha, joguei vários campeonatos, ganhei como destaque no Mercosul de Voleibol. Quando eu tava no 3º ano, o professor Giba conseguiu ampliar o projeto para a equipe adulta BSBios/UPF, então eu fiz parte de tudo, desde as categorias de base, da volta para o Estadual, do renascimento de Passo Fundo no cenário gaúcho do voleibol. A questão da minha altura me limitou no sentido de sair de Passo Fundo e jogar mais profissionalmente, mas sempre tive como norte o amor e o prazer que eu tinha pelo esporte e as tantas coisas boas que ele me proporcionou, no sentido de viajar, de conhecer novos lugares, das amizades, dos estudos”, lembra.

Como bolsista da Universidade de Passo Fundo por conta da atuação no time de voleibol, a trajetória da ponteira não foi menos vitoriosa. A equipe passo-fundense conquistou o primeiro título da Copa RS em 2015, mesmo ano em que chegou à final dos Jogos Intermunicipais do Rio Grande do Sul (JIRGS). E foi ali, justamente na disputa de um novo título, que o salto para um ataque encerrou com um ponto a mais para a BSBios/UPF e uma esperança a menos para a Gabriela. “Foi o ano em que estávamos com um dos melhores times e com a melhor campanha no Estadual. Eu vinha há anos com essa busca pelo título gaúcho, fiz parte de todos os ciclos do projeto, era o ano que estávamos na final. No fim de semana anterior à final do Estadual, fomos disputar os JIRGS. Já no domingo, no segundo set da partida final, eu fiz uma sequência de dois ataques. No último salto, eu fiz o ponto e quando fui amortecer a queda no chão, meu joelho saiu do lugar. Com a dor que eu senti na hora, pensei que tinha quebrado a perna. Só quando tentei esticar o joelho é que percebi que o problema era ali. Quando mexeram no meu joelho e eu percebi o inchaço e a dor, eu já senti que a lesão era grave”.

A intuição da atleta não falhou. Os exames realizados em Passo Fundo no dia seguinte confirmaram o diagnóstico: ao amortecer o salto, ela rompeu totalmente o ligamento cruzado do joelho e sofreu um derrame articular. “O sentimento que eu tive foi de impotência. Eu pensava: quando meu time for campeão, eu não vou estar jogando. Por mais que eu tivesse feito parte de quase todo o Estadual, ficar fora da final é algo que te anula. Eu chorei, fiquei muito mal humorada, fiquei inconformada com a minha lesão. Eu não aceitava o fato de eu, Gabriela Be, capitã do time, com todo o histórico que eu tinha, com a sede de conquistar aquele título inédito e de representar o meu time, chegar justamente uma semana antes da final e lesionar o joelho”, conta. O jogo decisivo diante da Sogipa foi disputado no Ginásio do Colégio Notre Dame, em Passo Fundo, no dia 28 de novembro de 2015. A camisa 10 da equipe ficou fora dos dois jogos mais importantes do ano. Quando chegou ao ginásio, caminhando com a ajuda de muletas, foi imediatamente saudada pelas companheiras. Elas sabiam que, mesmo do lado de fora das quatro linhas, o coração da Gabi estava ali dentro. Por isso, ao serem chamadas para ingressar na quadra, as jogadoras fizeram questão de cumprimentar a atleta, que não conteve o choro. Nos olhos marejados da Gabi, ficou ainda mais evidente o quanto aquele título significava para o grupo.

A luta para superar a frustração de ocupar um espaço que não constava na súmula da partida foi apenas a primeira batalha. Três dias depois da conquista do Campeonato Gaúcho de Voleibol Adulto Feminino, o susto: orientada a aguardar cerca de duas semanas para que o joelho desinchasse, a estudante passou mal e precisou ser hospitalizada. Ela foi internada na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) com quadro de embolia pulmonar bilateral, devido a um coágulo do joelho que subiu para o pulmão. “Passei um perrengue, uma situação bem delicada. Foi uma questão de dois a três meses para eu me recuperar fisicamente. Por uma questão médica, mais de dois anos depois da lesão, ainda não operei o joelho. Passei cerca de um ano e meio em tratamento, tomando anticoagulante. Devido à lesão, eu descobri que tenho um problema hereditário de coagulação, uma predisposição genética que me trouxe essa complicação pós-lesão”, relata. 

Um ciclo inacabado

Um dos maiores legados do esporte na carreira dos atletas é justamente a percepção sobre a importância de recomeçar. A entrega nos treinamentos, a insistência na execução dos movimentos, a busca incessante pela melhoria contínua na prática esportiva. Quem abraça uma modalidade sabe que, no intervalo entre as derrotas e as vitórias, há bem mais do que os resultados demonstrados no placar eletrônico: há uma história de superação individual por trás de cada ponto coletivo. E mesmo com tanto aprendizado diário, treino após treino, o esporte nunca prepara o atleta para a despedida – muito menos quando ela se dá de forma abrupta. Entender e, principalmente, aceitar o encerramento desse ciclo, feito de tantos outros que o precederam, exige muito mais do que maturidade para assimilar uma derrota.

Além de superar todas as complicações de saúde consequentes à entorse no joelho, a ex-ponteira da BSBios/UPF, Gabriela Parodi Be, precisou enfrentar a frustração pelo fim da carreira no voleibol aos 20 anos. A recomendação médica é para que ela não volte a praticar a modalidade sob o risco de ter uma nova lesão que possa originar um quadro de trombose. “Querendo ou não, tenho que pensar na minha saúde. Eu tinha muito a sensação de um ciclo inacabado, porque eu queria muito ter me formado jogando vôlei. A minha vida mudou bastante depois que eu parei de jogar. Eu tinha uma vida regrada, de atleta, era outra rotina. Até meu corpo mudou. Como joguei vôlei por 15 anos, eu tinha toda uma musculatura, uma resistência aeróbica pulmonar, e a doença me fez emagrecer muito, debilitou meus pulmões”, pontua.

O sentimento de desapontamento é também compartilhado pelo técnico da equipe, Gilberto Bellaver – o Giba. O professor acompanhou a Gabriela desde a categoria mini e contribuiu de maneira substancial para a formação da atleta. “A lesão dela foi uma situação ainda mal resolvida, por tudo que aconteceu e pela maneira que aconteceu. A Gabi sempre foi uma atleta sempre muito presente na quadra, foi capitã de praticamente todas as equipes em que jogou. Pela vivência dela, pela força espiritual dela, pela vontade impressionante que ela tinha de querer vencer, ela se tornou uma referência dentro dos grupos que ela passou. Especificamente em 2015, quando ela se lesionou, foi um fato realmente muito triste para mim, porque foi a primeira vez que uma equipe passo-fundense foi campeã do JIRGS e, posteriormente, do campeonato estadual. E ela não estava em quadra”, lamenta.

O treinador lembra que, no dia em que a ponteira rompeu o ligamento cruzado do joelho, ela estava, novamente, se dedicando ao máximo dentro de quadra. “Ela literalmente se jogou para atacar aquela bola, para colocar toda a potência que ela tinha, para virar a bola e dar o ponto para a equipe. Ela não pôde continuar no jogo e estar junto com a equipe para comemorar o título. Isso foi marcante para mim porque, sinceramente, ela merecia muito estar dentro da quadra naquele momento, até mais do que eu. Quando ela já estava no carro para ser levada para casa, eu pedi licença pra todo mundo, fiquei um minuto ali só com ela, dei um abraço muito forte nela e pedi desculpas por ela ter se machucado, porque eu me achava responsável por aquilo também. Meu sentimento foi de muita frustração, de uma perda muito grande”, recorda.

Consciência é a maior aliada da prevenção

Ao falar em lesões ocasionadas no esporte, é preciso diferenciar o acidente traumático, como é o caso da ex-jogadora Gabriela, da lesão por erro técnico. Quem faz o alerta é o ortopedista do IOT de Passo Fundo e especialista em cirurgia do joelho, Dr. André Kuhn. De acordo com ele, muitos pacientes, principalmente adolescentes, procuram o atendimento médico indicando dores no joelho. “Isso ocorre devido à sobrecarga e ao erro de treinamento. Às vezes, falta orientação. As pessoas são sedentárias e aí, em três ou quatro meses, elas querem fazer o que não fizeram durante toda a vida. Nesse caso, o risco de uma lesão é altíssimo. O joelho sofre muito, porque é uma articulação de movimento. Ele é um dos mais afetados na prática esportiva”, orienta.

Sempre recomendada pelos médicos como fator protetivo ao surgimento de inúmeras doenças, a prática regular de exercícios físicos, para surtir efeito, deve ser consciente, respeitando as individualidades de cada um. “É possível evitar as lesões tendo consciência corporal, entendendo que as pessoas não são iguais, que cada uma tem seu biótipo e seu morfotipo, tem a sua preferência por esporte, tem a sua elasticidade original, enfim, há vários fatores envolvidos”, ressalta o especialista. De acordo com o Kuhn, é fundamental desenvolver uma percepção mais apurada do equilíbrio corporal, reconhecendo os limites e, principalmente, observando a disciplina na condução das atividades físicas. “O esporte tem na sua prática o risco inerente de algum tipo de lesão. Sabendo quais são as lesões mais comuns naquele esporte, temos que ter um treino específico e, mesmo assim, isso não significa que vou impedir que a lesão aconteça. Para se ter uma ideia, vamos usar como exemplo aquele homem que joga futebol uma vez por semana, chega atrasado no jogo, não se aquece e depois do jogo ainda come churrasco e bebe cerveja. Ele tem um potencial risco de sofrer uma lesão, que poderia ser evitada. Não se trata de dizer que as pessoas não devem praticar alguma atividade física, mas sim que é necessário fazer um trabalho muscular na academia, chegar um tempo antes do jogo para alongar, não deixar a musculatura esfriar. Na prática, as pessoas só vão assimilar essa ideia quando sentirem na pele, quando vivenciarem a lesão, aí já é tarde”.

Os casos de rompimentos ligamentares no joelho são bastante comuns no Instituto de Ortopedia e Traumatologia (IOT). O futebol é o esporte que mais ocasiona esse tipo de lesão. Segundo o médico, isso se deve ao fato que a maioria das pessoas que joga bola não tem o preparo físico adequado para praticar a modalidade. “Existe uma desaceleração súbita, eu calço o pé, há uma ação do músculo da coxa que se contrai e lá dentro do joelho o ligamento rompe sozinho, ele se corta como em uma guilhotina. Isso é erro de propriocepção. Após a lesão, mesmo com a cirurgia, é preciso alongar, trabalhar o equilíbrio, respeitar o tempo de recuperação funcional. O tempo não é só cronológico, é preciso paciência e disciplina. O grande risco são os primeiros três meses de retorno ao esporte. A maioria se machuca nesse retorno, justamente por querer acelerar o processo de recuperação”, alerta.

A partir da sua atuação profissional, o ortopedista indica que cerca de 80% dos casos são de lesões preveníveis, ou seja, que poderiam ser evitadas se houvesse uma preparação adequada. Quanto mais jovem o paciente, maior o risco de lesão- o que, de acordo com o especialista, está relacionado à questão da responsabilidade. “Por que você rompeu o ligamento original? É por que ele tinha problema ou o dono que não soube se adequar fisicamente? Precisamos colocar na cabeça dos jovens que o condicionamento físico é responsabilidade deles e que isso envolve disciplina. Esporte é como o colégio: ninguém entra hoje na primeira série e chega à oitava em dois meses. É preciso cumprir todas as etapas, série por série. É isso que, às vezes, as pessoas não entendem, elas querem resultados imediatos”.

Até mesmo o trabalho muscular realizado na academia precisa estar sob alerta. O treino efetuado sem orientação profissional adequada pode ser extremamente prejudicial, aumentando o risco de lesões. A execução correta dos movimentos é essencial para assegurar os benefícios da prática, assim como o alongamento ao final do exercício. A prática da corrida, por exemplo, é outro aspecto que carece de uma preparação específica. “Agora, parece que as corridas estão na moda. Então, as pessoas resolvem que querem praticar uma atividade física e decidem: vou correr. E se a pessoa nunca correu antes? Essa é uma atividade de alto impacto. Se a gente pegar uma escala, a corrida está lá no topo. Você precisa ir subindo degrau por degrau para chegar na corrida, não pode simplesmente começar por ela”, explica Kuhn.

A tecnologia em prol do esporte

Apesar de ainda ser pouco difundido, o trabalho do bioquímico esportivo cumpre um papel de extrema importância na carreira dos atletas. A partir de uma bateria de exames, esse profissional consegue detectar precocemente a possibilidade de lesões em atletas, orientando a atuação do Departamento Médico, do preparador físico, do fisioterapeuta e até do nutricionista do clube. Para o fisiologista e bioquímico esportivo, Arthur Fraccanabbia, o entendimento de que as lesões são episódios naturais na vida dos jogadores é ultrapassado. “Em muitos casos, é falta de conhecimento mesmo. O pessoal das antigas vê a lesão no jogador de futebol como algo normal. Nós, da bioquímica, consideramos esse pensamento como uma aberração. Hoje, existe tecnologia para impedir que um atleta se lesione, temos como prever até uma fratura óssea por estresse, por exemplo”, esclarece.

Um dos testes realizados é o de controle de densidade urinária, para ver o grau de hidratação dos atletas. Segundo Fraccanabbia, cerca de 90% a 95% dos atletas de qualquer modalidade apresentam índice de desidratação, o que, como o próprio nome indica, se deve justamente a ingestão insuficiente de água. “Aí já começa o primeiro problema, porque junto com essa hipohidratação se perde de 30 a 35% da performance esportiva e isso, para um atleta profissional, é muita coisa. Disso, surgem as cãibras, o encurtamento muscular, entre outros problemas”, revela. Com a dosagem de quatro dados, sendo três enzimas e um substrato, o bioquímico consegue, em uma fórmula, prever o índice de estresse muscular do jogador, ou seja, avaliar o quanto a musculatura está cansada e, a partir disso, orientar os trabalhos junto ao preparador físico.

Apesar de vantajosa, a análise não é para qualquer bolso. Atualmente, cada dosagem custa cerca de R$ 2,5 mil por atleta. “As pessoas não sabem que existe esse método, até acham caro pagar por ele, mas em termos de monitoração de atleta para prevenção de lesão, é um avanço é muito grande. Existem dos métodos mais arcaicos – que a maioria dos clubes usa - até metodologias bem específicas. O custo-benefício de usufruir das tecnologias mais avançadas é sempre vantajoso. No exame mais completo, é impossível permitir que um atleta tenha uma lesão muscular, pois o método de diagnóstico é muito avançado. Só para se ter uma ideia, vou usar um exemplo: eu tenho um índice de estresse muscular e só quando esse índice chega a 500 é que uma Ressonância Magnética começará a apontá-lo. Em nível celular, com esse método, significa dizer que eu estou 500 vezes na frente de uma RM”, finaliza.

Comentários

Horários de Voos

Vôo Empresa Horários Destino (s) Frequência
VCP - PFB Azul 08:45:00 Passo Fundo segunda a sábado
VCP - PFB Azul 17:40:00 Passo Fundo segundas, terças, quartas, quintas, sextas e domin
VCP - PFB Azul 23:15:00 Passo Fundo segundas, terças, quartas, quintas, sextas e domin
VCP - PFB Azul 20:35:00 Passo Fundo sábados
PFB - VCP Azul 06:00:00 Campinas - SP todos os dias
PFB - VCP Azul 10:55:00 Campinas - SP todos os dias exceto aos domingos
PFB - VCP Azul 19:55:00 Campinas - SP todos os dias exceto aos sábados
FLN - PFB Azul 16:15:00 Passo Fundo Segundas, sextas e domingos
PFB - FLN Azul 18:20:00 Florianópolis Segundas, sextas e domingos

Matriz

Curta o Diário

(54)3316-4800Passo Fundo

(54)3329-9666Carazinho

  • Passo Fundo: (54) 9905-7864

    Carazinho: (54) 9959-5027