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Saúde

Distúrbios de fala na infância

Autor: Redação Diário da Manhã
Distúrbios de fala na infância
Foto: Divulgação

Falta de estímulo e ausência de brincadeiras simbólicas são fatores que atrapalham o processo de aquisição da língua por parte da criança

Daniele Freitas
Isadora Stentzler

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A pronúncia das primeiras sílabas é aguardada com ansiedade e expectativa pelos pais. As apostas em torno de qual será a primeira palavra pronunciada corretamente pela criança também fazem parte do cotidiano da família. Esse momento de novas descobertas e de desenvolvimento infantil pode ser, igualmente, um período marcado por dúvidas. Com que idade meu filho deve começar a falar? É normal ele trocar o R pelo L nas palavras? Quando a dificuldade de articular os sons indica que é necessário procurar um especialista?

Os pequenos “atrapalhos” nesse percurso de aquisição da linguagem são naturais, mas a criança precisa ser orientada sobre a pronúncia correta. Segundo a fonoaudióloga do Hospital da Cidade, Soraia Boscatto, a família cumpre um papel fundamental nesse contexto. “Os pais devem falar as palavras corretamente para as crianças, desde quando elas são pequenas. Por exemplo, se a criança fala ‘pato’ em vez de ‘prato’, os pais devem responder: ‘ah, você quer o prato?’. Não repreender a criança ou indicar que ela falou errado, mas sempre oferecer o modelo correto, pois assim ela vai aprender. Não se pode, também, infantilizar a fala da criança: achar que aquela troca é bonitinha e incentivar a manutenção daquele erro”, orienta.

Local onde as crianças passam grande parte do tempo durante a infância, a escola também é um espaço importante de estímulo da linguagem. De acordo com a especialista, é possível cumprir esse propósito no âmbito escolar através das brincadeiras, das músicas, dos livros e dos desenhos, estimulando a imaginação e o brincar de faz-de-conta sobre atividades da vida diária, como dormir ou comer. “A escola de educação infantil, principalmente, deve intervir muito nessas questões, para que as crianças consigam evoluir na aprendizagem. A estimulação da linguagem tem que ser prazerosa para as crianças. Além disso, as professoras também conseguem observar a idade de aquisição dos fonemas e podem orientar os pais para a necessidade de essa criança ser encaminhada a um profissional”.

Existem alguns sinais que podem servir como alerta para a possibilidade de a criança possuir alguma desordem de linguagem, como nenhuma palavra emitida até os 18 meses, a não colocação de duas palavras juntas e a ausência de desempenho iniciativo e simbólico aos dois anos de idade, a não formação de sentenças e o discurso incompreensível aos três anos. “As idades são apenas para os pais terem um parâmetro de observação, mas é sempre possível tratar. No caso do distúrbio fonológico, a troca do R pelo L é bastante comum. Ela passa a ser preocupante a partir dos quatro anos, no caso do L, e até, no máximo, cinco anos no caso do R e dos encontros consonantais. Se a criança não adquirir os sons até essa idade, aí sim, os pais devem buscar ajuda para solucionar o problema”, sinaliza Soraia.

Os distúrbios de fala, especialmente os fonológicos, são cada vez mais comuns. A alta incidência pode estar relacionada a fatores como a falta de estímulo, a ausência de brincadeiras simbólicas e da apresentação do modelo correto – características que atrapalham o desenvolvimento normal da criança. E é justamente por esses aspectos que passa a prevenção das desordens: conversar mais com a criança, interpretar as intenções dela - mesmo que ela não fale -, trabalhar com jogos simbólicos, falar as palavras corretamente sempre, deixar que ela consiga se expressar da forma dela e usar frases mais simples que ela consiga entender. Caso o diagnóstico se confirme, caberá ao fonoaudiólogo especificar e conduzir o tratamento, que, dependendo da patologia, pode ser trabalhado de forma multidisciplinar com um psicopedagogo, terapeuta ocupacional ou psicólogo.

Incidência mais comum
A Apraxia, ainda pouco conhecida no Brasil, é um distúrbio de origem neurológica que consiste no envio incorreto de informações para o cérebro planejar e executar determinados movimentos. “Esse distúrbio afeta a habilidade da criança de produzir sons da fala. Ela sabe o que quer falar, mas parece não saber o que fazer com a sua boca. São crianças que compreendem muito bem a linguagem, mas falar, pra elas, é um grande desafio”, explica a fonoaudióloga Soraia Boscatto. Especificamente nas crianças menores, uma característica observada é que a fala é muito limitada e de difícil compreensão, com repertório pobre de palavras. “Quanto mais extensa a palavra, maior a dificuldade. Outra característica é a criança pronunciar a mesma palavra de modos diferentes. Como: prato, patro, pato. Isso é bem marcante na apraxia”, complementa.

Já a Deficiência Específica de Linguagem, também chamada de DEL, manifesta-se a partir de uma dificuldade persistente para adquirir e desenvolver a fala e a linguagem. Mesmo que, aparentemente, a criança possua todas as condições para falar, ela não consegue ou apresenta muita dificuldade para realizar esse processo. A DEL pode estar relacionada, em alguns casos, a problemas auditivos ou à falta de estímulos e também pode ser um sinal de transtornos mais globais no desenvolvimento, como o Autismo e a Deficiência Intelectual.

Relações familiares podem impactar desenvolvimento da fala, avalia psicóloga
Crianças com problemas na fala podem estar respondendo ao impacto do ambiente: é o que avalia a especialista em saúde mental, psicóloga Camila Amaral, de Carazinho. Segundo ela, todo sintoma tem relação com a cultura, o social e com a família – onde está o primeiro modelo de sociedade da criança – e pode não ter origem patológica.  “Algumas crianças se desenvolvem menos ou mais emocionalmente e intelectualmente por causa dos valores que são transmitidos pelos que cuidam dela”, aponta.

Nesta conversa com o Diário da Manhã, a profissional explica as possíveis origens de problemas da fala na infância e os meios de tratamento para permitir um desenvolvimento saudável. 

DM: Os problemas na fala podem surgir a partir de um trauma? Quais são os mais comuns?
Camila Amaral: Muitos dos sintomas que aparecem na infância são como um "arranjo" feito para lidar com demandas que colocam a criança numa situação de impotência. Então, sim, situações traumáticas, difíceis de manejar emocionalmente, podem gerar na criança sintomas ou inibições de funções (como a fala), e, portanto, podem também afetar a linguagem. Alguns sintomas são transitórios e outros persistentes. Na clínica comumente atendemos crianças com atrasos da linguagem: que demoram a falar ou a formar frases; crianças que conseguem falar, mas são extremamente quietas, retraídas e não usam a linguagem na relação com os demais de forma eficaz; crianças que tem prejudicada a fluência, que fazem repetições de sons ou sílabas e tiques vocais; crianças com vocabulário e ideias restritas, limitadas, que são muitas vezes influência do uso excessivo de equipamentos eletrônicos, como computador, celulares e tablets, que causam verdadeiras intoxicações. As crianças também podem chegar ao consultório com dificuldades na alfabetização, na aquisição da linguagem escrita e isso também ser uma manifestação de dificuldade psíquica, embora isso não seja uma regra, já que as crianças são diferentes na forma e na velocidade com que aprendem.

DM: Quando desencadeado a partir de um trauma, como se dá o tratamento a fim de reverter?
Camila: Inicialmente, quando avaliamos uma criança com o objetivo de elaborar uma hipótese diagnóstica, podemos recorrer ao diálogo com outras disciplinas (que são a fonoaudiologia, a neurologia, a pedagogia...). O orgânico e o psíquico não são dissociados e é importante investigar se há algum distúrbio se apresentando como obstáculo à questão da linguagem. Não havendo nenhuma questão neurológica em jogo, a Psicologia, por sua vez, vai buscar produzir um olhar mais amplo e evolutivo do problema, tentando compreender o que contribuiu para o seu surgimento, quais atitudes os cuidadores podem tomar para ajudar. O acompanhamento da criança, seja por meio do brincar ou de conversa, pode ajudar a dar vazão ao que causa o sintoma.

DM: Nesses casos, o ambiente em que a criança vive pode desencadear problemas na fala?
Camila: Todo sintoma tem relação com a cultura, o social (ambiente) e com a família (que é a primeira sociedade da qual uma criança participa). Algumas crianças se desenvolvem menos ou mais emocionalmente e intelectualmente por causa dos valores que são transmitidos pelos que cuidam dela. Existem crianças que cometem erros de fala ou de linguagem escrita por causa de como se fala ou escreve na família. Existem crianças que são muito tímidas e quase não se comunicam por causa de como se apresentam as relações familiares: se os pais são muito exigentes, intolerantes com erros ou agressivos, as crianças podem se tornar mais retraídas ou ansiosas, agitadas. Isso afeta seu desempenho em várias áreas e pode trazer entraves para a expressão do que pensam, dos afetos...

DM: Crianças com problemas na fala, como gagueira, por exemplo, podem ser vítimas de bullying na escola. Quais os impactos que essas ações podem causar nelas?
Camila: Se a criança não for bem acolhida, ajudada pelas equipes escolares e pelos colegas, ela pode apresentar dificuldades de vários tipos, maiores ou menores. Nem todo bullying vai virar depressão infantil. Quando a criança tem melhores recursos emocionais, ela consegue dar conta, suportar piadas e apelidos que venha a receber, que podem ser passageiros e o impacto pode ser pequeno. Por outro lado, algumas crianças podem se sentir inferiores, podem valorizar mais o seu problema do que todo o resto da sua personalidade, se deprimindo, deixando de gostar de ir à escola.

DM: Qual a importância da busca de profissionais para que a criança não sofra devido ao problema?
Camila: Os profissionais da saúde mental podem realizar a avaliação e o tratamento dos problemas (de forma que se venha a resolver ou amenizar as dificuldades da criança) e ajudar os adultos ao redor a lidar com as dificuldades que eles possam ter diante desse filho, desse aluno que apresenta um problema, que é diferente do "ideal" que se tinha. Quanto ao bullying, a forma como a equipe da escola vai conduzir é fundamental. Quando acontece o bullying, se tem uma boa oportunidade de trabalhar com as crianças a aceitação das diferenças, a necessidade de se adotar atitudes mais respeitosas com todos. A escola não pode se privar de lidar com isso. Escola e família devem trabalhar juntas e se elas não têm clareza sobre como ajudar uma criança ou uma turma, podem procurar ajuda do psicólogo.

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