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Saúde

Quando a noite se torna dia

Autor: Redação Diário da Manhã
Quando a noite se torna dia
Foto Divulgação

Até cinco horas de sono por dia
Jovem de Carazinho compartilha o cotidiano de quem prefere passar as madrugadas acordado

Isadora Stentzler
[email protected]

“Podemos marcar para à tarde?”, pediu Vinicius* ao agendar a entrevista. Passava um pouco das 8h quando conversávamos, mas, para quem havia se deitado às 4h e levantado às 4h45, as horas vindouras seriam para descanso e a tarde parecia mais frutífera para a conversa.

Porém, o descanso imaginado não veio. Às 9h cozinhou macarrão, guisado e molho e permaneceu acordado até nos encontrarmos às 14h10 no centro de Carazinho. “Preferi não dormir, porque se eu dormisse poderia levantar às 16h e não vir. Mas agora já começo a sentir o cansaço. Eu sei, porque minhas pernas ficam moles. Mas é até bom porque aí tento regular meu relógio de novo”, disse Vinicius, aquecido do frio de 9ºC em uma touca e grandes casacos. Os olhos estavam visivelmente cansados, como de alguém que há tempos não lembra o que é passar uma noite com a mente silenciada. Porém, como um hábito antigo, disse que isso não lhe afetava mais.

Das lembranças do jovem de 26 anos, a noite passou a ser seu dia a partir dos 18 anos, quando, junto de amigos, começou a trabalhar em festas aos finais de semana. O descanso que deveria vir com a penumbra foi aí substituído pelos momentos de sol. E, ao findar do trabalho, a rotina se repetia passando do sábado e domingo para segunda-terça-quarta-quinta-sexta. “Meu pai também tinha hábitos noturnos”, recorda-se da referência. “Vivíamos eu, ele e minha avó. E logo que fiquei de maior ele também se aposentou. Mas desde criança me recordo dele ouvindo música madrugada adentro”.

Tentando buscar um motivo que fosse, Vinicius passeia pela própria história e cita pontos que o levaram a ter hábitos noturnos, seja por autoboicote, ansiedade, trabalho ou a arte, que encontra na história de alguns artistas pessoas fascinadas pela noite e a boemia. “Mas não considero que eu tenho um distúrbio. Acho que virou rotina, um hábito. Só que ficou mais intenso após alguns acontecimentos pessoais do ano passado”, destaca, com voz paciente.

Os acontecimentos aos quais Vinicius se refere, na verdade, são apenas um: a morte de seu pai por insuficiência respiratória em março de 2017. Os dias sequentes à perda lhe derrubaram emocionalmente, passando a ter hábitos destrutivos por vivenciar um luto que lhe parecia infindável. Tempos, lembra, em que apenas doses cavalares de álcool o faziam desligar-se da realidade que não queria viver. “Eu já tinha hábitos noturnos, mas depois disso se intensificou”, reconhece.

Ao dormir derrubado pelo álcool, Vinicius acordava horas depois e se emaranhava em outra garrafa. Hoje, não tem mais o hábito em sua rotina, porém vive com descansos médios de cinco horas por dia, o que se esforça para contornar das quartas para quintas-feiras, quando, à tarde, dá aula de malabares em uma escola de Carazinho.

“Então meu maior desfio é a quarta-feira. Mas eu me esforço e não deixo aquém. Tenho esse compromisso e procuro me organizar”.

Dia a dia

A verdade é que Vinicius disse já ter tentado reverter o quadro. Diante da possibilidade de se ter uma “vida diurna” ou se adequar a um o trabalho com horário comercial, pensa que pode sentir impactos nos primeiros dias. Por vezes, conta, como na terça-feira em que conversamos, acordou na madrugada após poucas horas de sono e manteve-se desperto até o cair da noite. A tentativa, disse, funcionou, dando-lhe uma boa noite de descanso. Mas, ao amanhecer e diante da possibilidade de aproveitar um novo dia, o seu relógio biológico o chamava para viver à noite – ainda que esse viver se limite a assistir filmes a fio ou ficar com seus pensamentos. “No frio até que durmo um pouco mais. Mas, ainda assim, às vezes vão horas enrolado nas cobertas, com o celular na mão, perdendo tempo”, contextualiza.

Apesar disso, Vinicius nunca procurou ajuda profissional. Acha que não precisa. É que bem no fundo pensa estar fadado a esse hábito mesmo. Um hábito tão antigo que se confunde com sua própria história. “Tem uma coisa na noite. Ela é calma, coisa que não se tem no dia. Eu realmente prefiro”.

*O nome do entrevistado foi alterado a pedido da fonte.

Quando a noite se torna o dia: 
Profissionais que trabalham durante a madrugada podem sofrer com distúrbios do sono e ter risco aumentado de doenças cardíacas

Daniele Freitas
[email protected]

A inversão do turno de sono é uma realidade para profissionais que precisam exercer o seu ofício durante a madrugada, caso, por exemplo, de médicos, enfermeiros, vigilantes, policiais militares, hoteleiros, comissários de bordo e até os próprios jornalistas. Às vezes, por necessidade financeira, outras por exigência do cargo, o fato é que a alteração do ciclo biológico pode acarretar em prejuízos à saúde, tanto em curto quanto em longo prazo. Desde os sintomas mais simples, como irritabilidade ou dificuldade de atenção, até consequências mais graves, como complicações cardiovasculares, a pessoa que não repousa no turno da noite nem dorme o número de horas adequado sente os impactos dessa mudança diretamente na sua qualidade de vida. Além das manifestações físicas, o sono diurno também é responsável por afetar o aspecto psicossocial do indivíduo.

Em entrevista ao caderno + Saúde, o pneumologista e especialista com área de atuação em Medicina do Sono pela AMB - Associação Médica Brasileira, Dr. Tiago Simon, explica como a privação de sono pode interferir na rotina do paciente e que cuidados diários podem auxiliar na prevenção de sintomas.

DM Saúde: A troca do dia pela noite representa quais impactos para a saúde do trabalhador?

Dr. Tiago Simon: Existem várias alterações que podem ocorrer, desde as mais simples, como alteração do padrão do ciclo do sono, até o risco aumentado de doenças. Também pode haver complicações do ponto de vista psicossocial. O fato de você ficar acordado à noite e ter que dormir de dia gera um desajuste do nosso ritmo biológico, uma vez que nós somos seres diurnos. O sol é nosso maior sincronizador de ambiente. Esse desajuste pode levar a disfunções do sono, ou seja, a pessoa pode ter dificuldade para dormir e, então, ter algum grau de insônia, apneia ou privação de sono. Isso acontece porque ela vai dormir menos do que o esperado - o que para um adulto seria algo em torno de 7 a 9 horas por dia. É difícil, por exemplo, que essa pessoa saia do trabalho às sete da manhã e durma até às duas ou quatro da tarde. Geralmente, ela dorme só até meio-dia. Por dormir menos, pode haver mudanças de comportamento, da rotina alimentar e até a diminuição da prática de atividade física: isso eleva o risco de doença cardíaca, de diabetes, hipertensão e obesidade. Do ponto de vista psicossocial, a pessoa pode ficar isolada, porque, enquanto a maioria está convivendo com outras pessoas e com a família durante o dia, ela está dormindo. Isso pode gerar um nível de estresse e até mesmo depressão nos trabalhadores noturnos. Em curto prazo, observamos mais os sintomas de privação de sono, como mais cansaço durante o dia, um rendimento menor, e, dependendo com o que essa pessoa trabalha à noite, é preciso estar atento ao risco de acidentes. Em longo prazo, há o risco aumentado de doenças e já existem alguns estudos que estão associando, também, a falta de sono a uma possibilidade maior de o paciente desenvolver câncer.

DM: A partir disso, podemos afirmar que somos seres feitos para utilizar o turno da noite para dormir?

Dr. Tiago: Nosso ritmo circadiano, que designa o período de 24 horas, tem o seu pico de atividades durante o dia. Durante a noite, a gente repousa. Somos seres diurnos. Trabalhar à noite é algo que vai contra a fisiologia do organismo. A qualidade do sono de uma pessoa que dorme oito horas durante a noite e oito horas durante o dia é diferente, até devido a esse desajuste de ritmo biológico que temos em função do ciclo claro/escuro. 

DM: O que orienta o sono ideal é a escuridão do ambiente?

Dr. Tiago: Hoje, estamos tendo uma epidemia de sono de má qualidade por causa dos eletrônicos. Durante a noite, as pessoas ficam expostas a mais luz do que deveriam, com o uso de celulares, tablets e TVs, e isso acaba prejudicando o sono. Existe um hormônio chamado melatonina, que é responsável pela indução do sono e só é produzido no escuro. Então, quando começa a anoitecer e a luz começa a diminuir, o organismo inicia a produção de melatonina e sinaliza para o corpo que está na hora de dormir. Se você fica mais exposto à luz, há uma inibição nessa produção de melatonina e, por consequência, menos sono. Sabemos que, hoje, estamos dormindo 25% a menos do que se dormia há 50 anos.

DM: Isso está relacionado ao ritmo de trabalho, à rotina das pessoas?

Dr. Tiago: Sim, esses fatores têm uma influência muito grande. Até em função do estresse gerado pelo trabalho, cada vez a pessoa tem que trabalhar e produzir mais, então ela acaba ‘invadindo’, por assim dizer, o período da noite com o trabalho, ou seja, levando o trabalho para casa e dormindo mais tarde, o que acarreta, justamente, em um prejuízo na quantidade e na qualidade do sono.

DM: Existe uma faixa etária em que essa mudança seja mais prejudicial?

Dr. Tiago: Isso não interfere muito. O que vemos é que os adolescentes e os adultos jovens andam mais privados de sono. Até em função dos eletrônicos, eles estão indo dormir mais tarde e precisam acordar cedo, quer dizer, o horário de acordar não muda, o que muda é o horário de dormir, que é cada vez mais tarde. Ou seja, esse público está dormindo menos. Pelo curto período de sono, estamos vendo um número aumentado de distúrbios decorrentes da privação crônica de sono.

Quais são os distúrbios de sono mais comuns?

Dr. Tiago: Já existem mais de cem distúrbios do sono catalogados, mas os dois mais frequentes são a insônia, que é a dificuldade para dormir, e a apneia obstrutiva do sono, que é quando você para de respirar durante o sono.

DM: Quem dorme durante o dia consegue atingir aquele estágio mais profundo do sono, mais restaurador?

Dr. Tiago: Sim, consegue, porque, na verdade, esses estágios são distribuídos em forma de ciclos. É como se fosse um trem com vários vagões. Cada vagão corresponderia a um ciclo de sono, em que você passa por todos os estágios do sono. Sabemos que o sono mais reparador para o corpo ocorre na primeira metade do sono. E o sono que é o responsável pela consolidação da memória, do aprendizado e pelo bem estar da mente acontece na segunda metade. Então, a gente vê que muitas pessoas que acabam dormindo menos sofrem um prejuízo nessa segunda parte, o que significa que pode haver prejuízo de aprendizado, de atenção durante o dia e maiores alterações de humor, como a irritabilidade.

Dormir demais também é um problema?

Dr. Tiago: Sim, os estudos mostram que você dormir menos que seis horas ou mais que dez horas por noite você tem risco aumentado de doença cardiovascular em longo prazo.

DM: O que podemos fazer para minimizar os impactos na saúde e melhorar a qualidade de sono dessas pessoas que trocam o dia pela noite?

Dr. Tiago: Recomendamos que elas possam tirar um cochilo à tarde, antes de ir trabalhar, porque, assim, elas estarão mais espertas no início do turno; e que o ambiente de trabalho seja iluminado, porque a luz inibe o surgimento do sono. Elas também podem usar estimulantes, como o café, mas devem evitá-los três horas antes do final do turno de trabalho, para não atrapalhar o início do sono. Além disso, ao chegar em casa, que essas pessoas possam ter um ambiente adequado para dormir, que seja um quarto escuro e silencioso e que as pessoas de casa colaborem nessa rotina também. Outra dica é que, ao sair do trabalho pela manhã, para já ir se preparando e estimular a produção de melatonina, essa pessoa use óculos escuros. Também é importante procurar manter uma rotina do horário de dormir e de acordar, e, se possível, ter momentos com a família, porque o aspecto psicossocial também é essencial.

DM: A partir do momento que uma pessoa encerra o ciclo de trabalho noturno, ela se adapta com facilidade ao ciclo diurno novamente? Como é essa transição?

Dr. Tiago: É algo com que o organismo se adapta. Assim como ocorre a adaptação para o trabalho no turno da noite, ocorre a adaptação para o trabalho durante o dia – que é até mais fácil, porque retoma o ritmo fisiológico da pessoa. É mais difícil uma pessoa se habituar a trabalhar à noite do que ela estar trabalhando à noite e voltar para o dia.

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