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A face do desemprego

Autor: Redação Diário da Manhã
A face do desemprego
Foto: Isadora Stentzler/DM

Mais de 600 pessoas participaram do Empregar RS de Carazinho. Evento ofereceu especialização e contato direto com empregadores

Isadora Stentzler
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Juanita Gomes estava atrasada. Chegara 10h30min ao salão do Clube Caixeiral, em Carazinho, onde às 9h de sexta-feira (15) começara o Empregar RS – evento organizado pela Fundação Gaúcha do Trabalho e Ação Social (FGTAS) que prometia a intermediação entre desempregados e empregadores com 70 vagas em aberto. Uma chance para ela, que dos 55 anos passou os últimos oito em casa. A passos rápidos entrou no salão, saindo em menos de cinco minutos para conversar com o sobrinho ao telefone. “A palestra e a entrega de currículo vai até às 11h. depois continua à tarde, 13h30min”, explicou ao jovem de 30 anos que também passa pelo desemprego.

A senhora havia deixado o bairro Vila Rica, onde mora com a mãe, de 81 anos, para o evento que descobrira quando levou o currículo ao Sine da cidade. Uma cópia do documento estava em uma pasta azul, junto com a carteira de trabalho, que há tempos não vê caneta ao papel. Ela o exibe com orgulho. “Minha área é escritório, secretariado, mas eu tô buscando qualquer coisa agora. Olha”, e mostra o papel impresso com seu nome completo e uma foto 3x4 no canto direito, “estudei, fiz o magistério. Era arquivista, e antes fui recepcionista, e antes trabalhei ainda naquele Baú da Felicidade, sabe? Quando saí de lá o pessoal perguntava se eu tinha fechado a loja. Gostavam tanto de mim que achavam que eu era a dona.” E riu.

Atrás do riso que vinha com as lembranças dos tempos de trabalho, escondia-se em Juanita o cansaço de quem, de tantas portas fechadas, desespera-se. A sensação, descreve, é de ter perdido a dignidade junto da autonomia de ter os próprios recursos aos 55 anos.

Seu afastamento do mercado se deu devido a uma depressão que a fez trancafiar-se em casa com medo e desgosto do mundo. Foi só no início do ano passado que, em uma nova perícia, foi dada apta a voltar. Desde então as sucessivas portas fechadas a fizeram olhar para o evento de sexta-feira como uma oportunidade a ser lograda.

“A gente não pode ajudar ninguém porque também precisa de ajuda. Comprar um queijo, sabe, tem vezes que não posso. Saciar alguma vontade, também não. E eu vivo com o que minha mãe, aposentada, recebe. E isso mal dá pra nós duas”, desabafa.

Ela não era a única malograda no espaço que, em outras oportunidades, serviu para a alegria das festas e o esquecer dos problemas.

Viver de bicos

Jaime Luiz de Camargo, de 52 anos, escondido em seu boné e jaquetas, se apresentava às empresas que ali tinham os estandes. Entregava currículos. Vendia-se como peixe para tentar uma vaga de motorista. Mas como outros tantos que cruzavam os empregadores com seus currículos, “qualquer vaga estava bom”.

“Tô parado desde setembro de 2017. Consegui passar os cinco meses com seguro desemprego, mas depois não consegui mais nada. Trabalhei numa empresa por 30 dias e depois me mandaram embora. Falaram que eu ‘não me encaixava’. Agora tô fazendo bicos. Olha minhas unhas. Perdi elas trabalhando em terraplanagem, em obra. E isso pra ganhar R$ 20,00 a cada meio-dia”, narrou a sina, com os olhos pra baixo, desalentados, mostrando que a vontade de lutar quase se sumia.

Aos 52 anos, conta que se vê almoçando macarrão instantâneo. Não por praticidade. Mas por economia. Já ficou sem gás. E só se mantém ainda por não pagar aluguel e viver só. Do trabalho, diz, amontoa o que precisa para enviar a um dos filhos, a quem paga pensão. E só.

A vida, parece-lhe, resolveu o castigar desde a infância, quando perdera a vó que o criara, quando voltou a morar com a mãe e o padrasto – que o agredia –, e quando precisou, aos oito anos, fugir de casa e tentar a sorte de criança pobre na grande Porto Alegre.

Suas mãos não estavam calejadas à toa. Pena era a alma com mais abrolhos que os vistos na pele. “É muito triste. A sensação que eu tenho é de menosprezo. Não sei porque não me dão trabalho. Eu estudei pouco. Só até à 4ª série. Mas eu tenho experiência. E faço muito mais que o serviço que tenho que fazer. Acho que é porque eu não saio bem vestido. Mas eu não tenho dinheiro pra usar roupas melhores.”

Empregar RS

O evento que atraiu os vários Juanitas e Jaimes na sexta-feira acontecia também em outras 83 agências do estado, com apoio da Fundação Gaúcha do Trabalho e Ação Social. Em Carazinho, quatro palestras foram organizadas ao público das 9h às 16h, alertando sobre a elaboração de currículos, especialização do trabalhador, empregabilidade e marketing pessoal.

Outros estandes também faziam a captação dos interessados, a fim de colocar em contato direto empregadores e futuros empregados. Participaram do evento o Senac, Sest/Senat, Sesc, Ciee, CDL, Senai, Assistência Social, Unopar, Senar, Escola Sorg e o NEEJA/EJA.

Em um cenário cujo o Sine emitiu 170 seguros desempregos contra 22 vagas disponíveis em apenas nove dias, o objetivo ali era fazer com que o número fosse minimizado e os problemas de desemprego, sanados.

Durante todo o dia, mais de 600 pessoas, de acordo com a coordenadora do Sine, Cleonice Magalhães, participaram do Empregar. A unidade também abria 70 vagas nas áreas de montador, soldador, operador de torno, operador de empilhadeira, auxiliar de pintura para peças de máquinas, motorista, auxiliar de serviços gerais, auxiliar de carga e descarga, vendedor externo e chapista. Oportunidades que os Jaimes e Juanitas almejam alcançar. “Hoje eu tive esperança. Acho que vou conseguir”, falou Jaime, apontando que ainda havia resquícios de força em quem, há tempos, se vê caindo na pobreza do desemprego.

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