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Educação

Resistir por um amanhã melhor

Autor: Isabella Westphalen
Resistir por um amanhã melhor
Foto: DM/Isabella Westphalen

Para que a sociedade mude, em termos de preconceito, discriminação e intolerância, tendo em vista um amanhã mais igualitário, a equipe do Centro de Apoio Social Conceição (CASC) acredita ser necessário muito mais do que só alfabetizar uma criança, por isso, resiste há 21 anos

Isabella Westphalen
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Desde o dia 13 de abril de 1997, o lema “educando Eres, Guris e Curumins” move o trabalho do Centro de Apoio Social Conceição (CASC) em Carazinho. Entidade que só existe porque há 21 anos a professora, socióloga e Yalorisá Mãe Carmem Holanda, olhou para a fome das crianças na cidade e decidiu abrir um espaço de acolhimento, e então pensou: por que não também um lugar de educação?

- A gente montou a escola com um projeto político pedagógico diferenciado: “educando Eres, Guris e Curumins”. Eres pela cultura negra, Curumins pela cultura indígena e Guris pela cultura gaúcha, branca - explicou Mãe Carmem, também afirmando que para que se possa mudar, buscando uma sociedade mais igualitária e respeitosa, é necessário que se eduque as crianças em primeiro lugar. “Assim as crianças podem crescer, se desenvolver pedagogicamente e socialmente, respeitando um ao outro, conhecendo seu pertencimento histórico, seus ancestrais e o pertencimento do outro”, complementou Carmem.

Envolvida com a festa junina que acontecia no CASC, Mãe Carmem me recebeu em um dia ensolarado de inverno, com os braços abertos e um sorriso no rosto, logo me apresentando às crianças e à equipe do Centro, que hoje conta com 75 alunos, na faixa etária de 1 a 3 anos, sete professores e uma diretora, além da equipe administrativa. “A escola não quer só trabalhar valores culturais e étnicos, quer trabalhar qualidade de educação. Queremos educar em cima de valores de vida, de comunidade, de respeito e tolerância, porque se a criança respeita sua cultura e aquilo que você traz, ela te respeita”, refletiu Mãe Carmem, que é presidente da Sociedade Beneficente e Cultural Ilê Asé Obá Aganju Alafin Jetioká, entidade que é mantenedora do CASC.

“Nós queremos que a criança branca te abrace enquanto criança negra e indígena e sinta o coração bater no mesmo compasso. Que entendam que temos o mesmo sangue” - Mãe Carmem Holanda

Legado de resistência

Além do auxílio da mantenedora, o CASC também tem um convênio com o FUNDEB, via Município, e também conta com a ajuda da comunidade, que colabora com doações. “A gente faz campanhas, de agasalho, alimentos, enfim, então, a gente manteve a escola durante 21 anos assim. Eu chamo isso de resistência, isso é legado”, explicou Carmem, que também conta que a partir de uma atualização no edital do qual fazem parte no município, desde o ano passado o CASC conta com uma diretora, coordenadora e administração.

Para Carmem, trata-se de um processo novo de adaptação e um tanto quanto difícil, afinal, o CASC representa também sua luta e sua história, enquanto mulher, negra e religiosa de matriz africana. “A gente passa por algumas dificuldades que só a gente sabe, como sobrevive e como resiste. Mas, hoje eu confio na diretora, a Camila, que tem a cara branca, é menina ainda, não teve a minha caminhada mas tem a boa vontade de começar a caminhar dentro do legado que deixei”, explicou a Yalorisá, que acredita que o Centro está em boas mãos.

Camila Xavier Fetzer entrou na escola em fevereiro de 2017, atuando desde então como diretora, após ela mesma ter procurado Mãe Carmem e se proposto a ocupar tal posto. “O CASC é uma experiência única, é um processo muito rico aqui dentro. A gente aprende a ser alguém melhor antes de qualquer coisa, são detalhes que fazem com que esse lugar seja tão especial”, ressaltou a diretora, que conquistou a confiança de Carmem e admira o trabalho desempenhado no Centro.

“Aqui a gente vê que existe esperança e a responsabilidade de assumir esse papel é muito grande. A gente luta todo dia, é uma resistência mesmo, só fica no CASC quem vem de coração” - Camila Xavier Fetzer

Significado

Presente desde quando o CASC era apenas uma ideia no coração de Mãe Carmem, a auxiliar administrativa do Centro Miraci Holanda tem uma relação especial com a instituição, pois acredita que o trabalho no CASC empodera o ser humano no seu pertencimento. “Ensina a reconhecer e respeitar o outro, o pertencimento desse outro, vislumbrando a possibilidade concreta de termos uma sociedade melhor”, refletiu Miraci.

- Isso alivia cicatrizes que a gente traz na nossa formação escolar, porque quando a minha professora me chamava de “negrinha bonachuda” e meu colega chamava meu cabelo de bombril a escola não tinha uma proposta para defender o meu pertencimento. A cicatriz se formou, mas hoje ela deixa de ser cicatriz para ser uma marca do meu pertencimento - compartilhou Miraci, que relata que além de trabalhar a criança, o Centro também trabalha o adulto que presta serviços na escola, pois partem do ensinamento de Mãe Carmem: “É preciso uma aldeia para educar uma criança” e acredita que essa é uma proposta enriquecedora.

Para Miraci, o CASC deveria ter seu papel social reconhecido, pois trata-se de uma responsabilidade que a equipe puxa para si. “Nós tomamos essa frente, para que esses valores sejam difundidos e multiplicados. Estamos aprendendo e crescendo juntos, trabalhando na circularidade, olhando uns nos olhos dos outros”, salientou a auxiliar administrativa.

Comprometimento de uma geração

Desde os oito anos, Joana Holanda, neta de Mãe Carmem e filha de Miraci, frequenta o CASC e conta que, desde lá, entende a relevância e papel do Centro. Após fazer magistério, Joana se tornou coordenadora pedagógica da escola, papel que descreve com brilho nos olhos. “Eu tenho papel e função de empoderar essas crianças, deixá-los conscientes que eles têm lugar na sociedade, que ninguém é melhor que ninguém”, contou Joana.

Sobre o projeto político pedagógico da Escola, Joana afirma que trata-se de algo que não se pode deixar morrer, pois não é algo somente de Carazinho, mas do Brasil inteiro, tendo em vista que é a única escola nesses moldes. “Nós já somos um fato histórico. Fazemos parte da história do Brasil como educação, não podemos deixar isso morrer”, complementou a coordenadora, que acredita também que o CASC tem o papel de mudar a percepção da sociedade, trazendo principalmente a história dos índios e dos negros.

- Como mulher negra, eu tenho que mostrar aos meus alunos que eles também estão nos livros, que eles podem se enxergar na história, nos contos de fada. Tenho que mostrar que há muita princesa negra, guerreiro indígena e africano - ressaltou Joana, que tem o trabalho no CASC como um comprometimento em sua vida.

Acolhimento

- O CASC é diferente. A gente tem uma forma diferente de acolher as crianças - começou contando a professora Adriana do Amaral, que trabalha há um ano no Centro e, além de recomendar a instituição como professora, também recomenda como mãe. “As minhas duas filhas vieram comigo ano passado, agora só a Manu permanece aqui, a Kelly já não está mais na faixa etária”, contou.

Outra virtude do Centro, relatada por Adriana, é que na Escola não olham para a criança como apenas mais um, há muito carinho e atenção envolvidos no processo, valorizando também a questão dos pequenos gestos. “A simples ação de dizer que todos somos lindos, cada um da sua cor, a gente tenta passar para eles o valor de se olhar no espelho e se achar lindo como você é, isso é valioso”, reforçou a professora, que quer que suas filhas cresçam responsáveis socialmente, olhando com mais carinho para o mundo.

O coração do CASC

O esforço no CASC é conjunto, a luta é diária, mas o coração e energia pulsando forte do local são de Mãe Carmem, que retrata o projeto com tanta propriedade e carinho que não há como não se encantar. Ao contar-me sobre o trabalho, logo de início, a Yalorisá segurou minha mão e citou um dos valores que seguem, de que a escola precisa ensinar os seus a ler e escrever sua história e trazer essa riqueza cultural.

- Eu, enquanto mulher negra, trago toda a minha riqueza cultural. A Camila, enquanto mulher branca, vai trazendo agora toda a riqueza cultural dela. É preciso despir-se, principalmente, se tenho a cara branca, indígena ou preta - refletiu Carmem, que acredita que é necessário vivenciar a cultura do outro, para poder compreender as belezas e as dores de cada um.

Amigos do CASC

Para que o Centro seja independente e possa funcionar 100% através do projeto político pedagógico que se propõe, o CASC está sempre buscando parceiros que tenham a disponibilidade financeira de contribuir de alguma forma. “Não é só dinheiro em espécie, precisamos de todo o tipo de material, de limpeza, de higiene, escolar, enfim, toda ajuda é importante”, explicou Camila.

Segundo Miraci, quem é parceiro do Centro tem a possibilidade de vislumbrar um mundo diferente, uma possibilidade de fazer diferente. “Seja amigo pela responsabilidade que o CASC tem com a sociedade, para que o nosso trabalho se multiplique e essa ideia não morra”, comentou a auxiliar administrativa.

 

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