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Saúde

Quase 80% dos casos não são emergência

Autor: Daniele Freitas
Quase 80% dos casos não são emergência
Foto: Daniele Freitas/DM

Falta de conhecimento sobre a classificação de risco e demora para atendimento na Atenção Básica são fatores que contribuem para a sobrecarga na unidade hospitalar

“Ficha 217”, chama a enfermeira. Com o filho nos braços, a mãe encaminha-se para o balcão do setor de Emergência do Hospital São Vicente de Paulo para preencher a ficha de atendimento. Na sala de espera, não restam cadeiras livres. Também em pé, pessoas de variadas idades lotam o espaço na busca por auxílio médico. A espera ansiosa pelo anúncio do nome na porta é acompanhada de perto pela impaciência de cada espiada no relógio e, algumas vezes, pela revolta. “Por que ele chegou depois e já foi atendido?”, questionam, de forma recorrente. A pergunta tem razão de existir: os pacientes desconhecem o sistema de classificação de risco adotado pelo hospital para efetuar a triagem e priorizar os casos mais urgentes. Não entendem, igualmente, que a ampla maioria sequer precisaria ou deveria estar ali. Conforme dados da instituição, em média, de cada dez pacientes que buscam o setor de Emergência do HSVP, oito poderiam receber o atendimento na Atenção Básica.

A proporção fica ainda mais alarmante quando transportada para o número total de atendimentos. Só em junho, foram 6.440 registros – índice alavancado pelas doenças respiratórias, cuja incidência aumenta nesta época do ano. Desses, 5.152 não eram casos emergenciais. “São pessoas que poderiam ou deveriam ir nos Cais ou nas Unidades Básicas de Saúde, receber o primeiro atendimento e, a partir daquela conduta inicial, passariam para uma média e alta complexidade, que é o que a Emergência representa. Só que elas acabam vindo para cá por vários motivos, entre eles a questão dos exames, que são mais demorados na UBS. Lá, é preciso agendar outra consulta, ir para o especialista. Aqui, elas são atendidas, são realizados os exames necessários e elas já saem com o tratamento. Isso também faz com que elas procurem bem mais o nosso setor”, explica a enfermeira gestora da Emergência do Hospital São Vicente de Paulo (HSVP), Maristela Silveira Rodrigues.

O desejo de ser atendido no mesmo dia em que os sintomas se manifestam é um relato comum entre os pacientes, mesmo que isso signifique, nos casos não urgentes e poucos urgentes, uma espera de mais de quatro horas. Para a coordenadora médica da Emergência do HSVP, Dra. Luciana Renner, o caminho para aliviar a superlotação do setor passa diretamente por uma maior conscientização da população. “Temos uma cultura muito errada de emergência. As pessoas aqui em Passo Fundo, de forma geral, procuram a Emergência por qualquer motivo, que é o caminho mais fácil de se ter um atendimento médico. E isso nos traz grandes problemas, porque temos um grande número de atendimentos. Desses, quase 80% são casos não graves, são consultas, trocas de receitas, problemas crônicos, casos de baixa complexidade que deveriam passar pura e simplesmente por uma consulta médica na Atenção Básica. E esses pacientes estão aqui. Com isso, a nossa fila de atendimento acaba sendo muito longa, o tempo de espera muito longo e muitos deles saem insatisfeitos com o tipo de conduta que é adotada”, pontua.

Do total de atendimentos realizados na Emergência da instituição, cerca de 90% são através do Sistema Único de Saúde (SUS). São pessoas que vêm de diferentes pontos da cidade, principalmente dos bairros Centro e Vera Cruz. “Precisamos que a população entenda e compreenda, e isso é uma questão cultural, que hospital é para paciente que precisa de atenção de alta e média complexidade especializada. Paciente que não precisa vir para o hospital não deveria vir, porque ele estará ocupando o lugar daquele que precisa estar aqui. Isso gera bastante transtorno no nosso dia a dia. As pessoas precisam ter consciência de quando vir para o hospital. Diariamente, recebemos essa reclamação de que não estamos dando atenção ao problema de alguém”, relata a enfermeira Maristela. O descontentamento com o serviço, principalmente devido ao tempo de espera, torna rotineiras as reclamações ouvidas pelos médicos e enfermeiros que trabalham no setor. “Temos que adotar uma conduta relacionada à emergência, por isso, não temos como investigar problemas crônicos, como ajustar os medicamentos de pressão alta, de diabetes, trocar receitas... e é isso que, muitas vezes, eles vêm procurar aqui.  O nosso objetivo é fazer um esclarecimento à população de que na Emergência tem de ser casos de emergência. As consultas devem ser feitas na Atenção Básica. Aí, o paciente diz: ah, mas na UBS demora. Só que nós atendemos casos de pacientes que têm queixas de 30, 60, 90 dias, até um ano. Então, ele poderia muito bem ter marcado sua consulta na rede básica, aguardado essa consulta e resolvido o problema”, reforça a Dra. Luciana.

Outro motivo que leva um número desnecessário de pessoas a buscarem o setor de Emergência está relacionado à confiabilidade no diagnóstico. “Eles vão na UBS, no Hospital Municipal e depois também procuram o HSVP. Às vezes, os pacientes não se sentem seguros, não acreditam no que foi dito e acabam buscando vários serviços até que o problema seja resolvido. Ou, então, alegam que na UBS demora, que não tem médico ou que o médico está de férias. As queixas são inúmeras”, conta a enfermeira Maristela. Em situação delicada, a Emergência do HSVP está com um quadro de superlotação, operando quase 100% acima da capacidade. “Existem muitos pacientes internados, que estão aguardando leito no andar, assim como os pacientes em todo o hospital, que são mais complexos e demora para concluir o tratamento e ter alta. Dependemos dessa liberação para eles irem para o quarto. Com isso, há pacientes que acabam ficando mais de 10, 15 dias internados na emergência”, revela.

A classificação de risco

Com o objetivo de efetuar a triagem e priorizar o atendimento dos casos mais urgentes, o Hospital São Vicente de Paulo implantou o protocolo baseado no Sistema Manchester de Classificação de Risco. Dessa forma, o paciente, ao chegar ao setor, preenche uma ficha de atendimento, que será encaminhada para a enfermeira responsável pela avaliação. “Conforme o que o paciente está dizendo ou apresentando, ele é classificado como muito urgente ou pouco urgente. Isso dará uma classificação de cor e essa cor indica o tempo que ele pode esperar. Por exemplo, uma criança que está com febre alta, com 40ºC, já vai direto passar na frente dos outros. Agora, uma criança que está com 37,8ºC de temperatura pode esperar, porque não é uma questão urgente. Claro que para o pai e a mãe dessa criança, aquilo é uma emergência, mas tem outras pessoas que estão mais graves e é preciso entender isso. Não é que não estamos valorizando a queixa daquela pessoa, é porque tem outras que vieram com queixas mais significativas ou emergentes”, salienta a enfermeira gestora da Emergência do HSVP, Maristela Silveira Rodrigues.

Nesse cenário, é comum a dúvida acerca do que pode ser considerado uma emergência. Primeiramente, contudo, faz-se necessária a distinção entre urgência e emergência. Segundo a enfermeira, urgência é aquilo que é grave, mas pode esperar, enquanto a emergência precisa de socorro imediato – caso, por exemplo, de uma parada cardiorrespiratória ou crise convulsiva. “Temos aqui desde esse tipo de situação mais grave até uma dor lombar ou uma enxaqueca. Mas a gente não banaliza, não manda ninguém embora. Todo paciente é atendido, avaliado, é feita a conduta e ele é referenciado ou para o serviço especializado ou para retorno”, orienta. Entre os casos que precisam de atendimento emergencial, estão os infartos, a insuficiência respiratória, as gastroenterites – especialmente nos idosos – e hemorragias. “É preciso estar atento às dores fortes no peito, principalmente quem já vem com uma história de pressão alta e de ansiedade, além do histórico familiar. No caso das doenças respiratórias, aquele paciente que está com muita falta de ar, que não consegue realizar as atividades do dia a dia, porque não tem força nem consegue comer, ou seja, que representa um quadro mais grave que pode ser uma insuficiência respiratória pela pneumonia ou outras complicações. Os pacientes com doenças crônicas também pioram bastante no inverno, quem tem asma, bronquite, enfisema. No caso dos idosos, as gastroenterites, que os deixam muito desnutridos e desidratados. Essas coisas são as graves. É, enfim, aquilo que não consegue mais se manejar com medidas básicas nem com a medicação que somos acostumados a tomar em casa. É esse tipo de situação tem que vir pra Emergência”, indica Maristela.

Na dúvida sobre a urgência dos sintomas, a recomendação das especialistas é para que a população busque o atendimento inicial na Atenção Básica. Após a avaliação do profissional da enfermagem ou médico, será possível caracterizar a existência ou não de uma emergência e, assim, proceder com os encaminhamentos. Segundo a coordenadora médica da Emergência do HSVP, Dra. Luciana Renner, nesse sentido, a adoção do Sistema Manchester auxiliou muito o trabalho da equipe que atua no setor. “Desde que adotamos a classificação de risco, o que faz em torno de um ano e meio, percebemos que isso dá uma segurança aos profissionais que estão trabalhando. Nós estamos seguros para não deixar aquele paciente grave aguardando atendimento e isso colocar a vida dele em risco. Conseguimos, também, que a grande maioria dos nossos atendimentos são fichas verdes e azuis: casos não urgentes ou pouco urgentes, que não deveriam estar aqui. Então, sempre voltamos nesse ponto e é isso que precisamos que a população entenda. Esses casos não devem estar nas emergências dos hospitais, porque é isso que causa a superlotação, o atrito, a insatisfação. Ninguém que chegar aqui e estiver com a sua vida ameaçada deixará de receber atendimento. Agora, aquele paciente que não teve sua demanda atendida na emergência, porque não tem um problema grave, é o que, geralmente, sai insatisfeito. A insatisfação é muito mais pelo não entendimento do que é um serviço de emergência”, destaca.

Na tentativa de desafogar as filas na sala de espera e diminuir o fluxo de atendimentos de baixa complexidade, o setor promoverá um trabalho de orientação sobre o Sistema Manchester, para que o paciente saiba o motivo de estar esperando por determinado período de tempo e/ou por que a ficha que chegou depois passou na frente. No entanto, mais do que a conscientização individual – que já é um importante passo para evitar a sobrecarga na Emergência -, é preciso que a população encontre o que precisa na Atenção Básica para não recorrer diretamente às unidades hospitalares. “O município terá que ter uma estrutura mais eficaz, mais resolutiva e mais acreditada pela população. Eu acho que Passo Fundo é uma cidade muito grande, que tem necessidade de uma UPA. A comunidade também precisa ter um Cais com portas abertas, porque todo mundo quer ser atendido no dia. E o único lugar onde as pessoas são atendidas no dia é na Emergência, mesmo que elas tenham que esperar quatro ou seis horas. Se a cidade tivesse uma UPA, Cais com portas abertas e um maior número de vagas disponíveis para esses atendimentos nas Unidades Básicas de Saúde, nossa demanda diminuiria e atenderíamos somente os casos graves e urgentes”, indica a médica coordenadora.

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