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Inimigo da saúde pública

De todos os fumantes que tentam abandonar o cigarro, em um período de dois anos, só metade consegue

Responsável por cerca de 200 mil mortes por ano no Brasil, o tabagismo é reconhecido, pela Organização Mundial da Saúde (OMS), como uma doença epidêmica. Apesar de os cânceres de pulmão e de laringe serem os mais comuns entre as pessoas que fumam, os prejuízos causados pelo cigarro vão muito além. A dependência da nicotina expõe os fumantes continuamente a mais de quatro mil substâncias tóxicas, fator de risco para aproximadamente 50 doenças, principalmente as respiratórias e cardiovasculares, além de vários tipos de câncer.

No início deste mês, um estudo divulgado pela publicação científica "The Lancet” revelou que o cigarro é responsável por uma em cada 10 mortes no mundo e que metade das mortes causadas pelo fumo ocorre em apenas quatro países: China, Índia, Estados Unidos e Rússia. A pesquisa constatou que, em 2015, aproximadamente um bilhão de pessoas no mundo fumavam diariamente: um em quatro homens e uma em 20 mulheres. A proporção é ligeiramente diferente da registrada 25 anos antes. Em 1990, eram um em cada três homens e uma em cada 12 mulheres.

O Brasil, por sua vez, aparece na pesquisa - que analisou 195 países entre 1990 e 2015 - como "uma história de sucesso digna de nota" devido à redução significativa no número de fumantes nos últimos anos. Uma das explicações pode estar, conforme a pneumologista Dra. Janaína Pilau, na regulamentação da Lei Antifumo. Publicada em 2014 pelo Ministério da Saúde, a lei estabeleceu, em todo o País, a implementação de novas regras sobre a comercialização, a publicidade e o consumo de cigarros. O objetivo era proteger a população do fumo passivo e contribuir para diminuição do tabagismo entre os brasileiros. “Vamos imaginar, por exemplo, um fumante que trabalha em um dos arranha-céus de São Paulo e precisa descer 20, 25 andares todos os dias para ir fumar na rua. Essa dificuldade pode fazer com que o fumante largue o hábito com o passar do tempo. Então, além de ser saudável para quem não fuma e convive no mesmo ambiente, auxilia quem quer parar de fumar”, destaca.

Contudo, largar o vício nem sempre é uma tarefa simples de ser resolvida, ainda que o paciente saiba da possibilidade de o tabagismo acarretar em sérias complicações de saúde, que vão desde uma bronquite até o risco de um acidente vascular cerebral. “Primeiramente, o fumante deve tomar consciência de que ele realmente precisa parar de fumar. É algo difícil! A família precisa atender e apoiar, mas não adianta só a família querer. A primeira coisa é perceber qual é a relação que o fumante tem com o cigarro. É entender: qual é o momento em que eu mais fumo? Quando eu dependo mais do cigarro?”, explica a pneumologista. A partir disso, inicia a mudança de hábito, principalmente quando o paciente associa o cigarro a uma atividade cotidiana – por exemplo, fumar enquanto toma o café pela manhã. Se o vício estiver associado a um hábito, ele se torna ainda mais difícil de dissociar.

Ajuda médica

O tratamento utilizado para auxiliar o fumante a abandonar o vício varia conforme cada paciente. O Ministério da Saúde disponibiliza, de forma gratuita, um programa de combate ao tabagismo. O serviço é oferecido nas unidades de saúde de cada município e qualquer fumante pode contar com esse auxílio, basta querer. “O paciente deve buscar a unidade de saúde mais próxima da sua casa. Cada unidade forma grupos de tabagismo, com cerca de 10 pessoas, que participam de encontros com uma equipe multiprofissional, composta por médico, enfermeira, psicóloga, entre outros, dependendo da disponibilidade de cada local. O médico, então, vai avaliar cada paciente e prescrever a medicação, para controle da ansiedade, e também a dosagem dos adesivos de nicotina, que podem ser de 21mg, 14mg ou 7mg”, esclarece a enfermeira coordenadora do programa de tabagismo em Passo Fundo, Fernanda de Oliveira Lazaretti.

Quem aderir ao programa deve participar dos encontros periódicos. No primeiro mês, são quatro reuniões. No segundo, um encontro é realizado a cada 15 dias. A partir do terceiro mês de tratamento, o número de encontros fica a critério de cada unidade de saúde. Segundo a enfermeira, metade das pessoas que aderiram ao programa no município conseguiu deixar o cigarro. Entretanto, há alguns cuidados que podem ser tomados em casa, pela família do fumante, e que auxiliam no processo de abandono do tabagismo, como retirar cinzeiros do local, deixar o ambiente limpo sem o cheiro do cigarro e pedir às pessoas que fumam para que não frequentem a casa após terem fumado.

Desconstrução da imagem do fumante

Há algumas décadas, fumar era considerado um hábito de pessoas bonitas, inteligentes e que detinham determinado poder a sociedade. Essa imagem, no entanto, veio perdendo espaço conforme o avanço dos estudos na área médica apontou os inúmeros malefícios do tabagismo. “Quando você vê as fotos do período logo após a segunda guerra, percebe as mulheres independentes, lindas, arrumadas e com um cigarro na mão. O cigarro estava associado ao poder. Hoje, a percepção mudou, mas muitas pessoas ainda acreditam que não serão afetadas pelas doenças decorrentes do cigarro. Elas sempre pensam que isso só acontece com o outro, não com elas. Outra coisa é aquela crença de ‘só vou experimentar e, quando eu quiser, eu largo’. E aí, quando essa pessoa se coloca em uma situação na qual ela precisa parar de fumar, percebe que não é tão fácil assim. O tabagismo é uma doença”, reforça a pneumologista Dra Janaína Pilau.

Ainda segundo a especialista, os casos de pessoas que fumaram por muitos anos e não apresentaram patologias decorrentes do tabagismo devem ser considerados como exceções. “Há componentes genéticos, estudados pela Medicina, que explicam por que esse fumante não desenvolveu qualquer doença. O que é preciso ter em mente é que o hábito de fumar é uma agressão ao organismo e que não basta parar de fumar para reverter os danos. A nicotina causa a dependência, mas as demais substâncias agridem as células”.

Ficar sem fumar por algumas horas já melhora a frequência cardíaca e a pressão. Em cinco anos, o risco de infarto diminui. No entanto, para começar a reduzir o risco de câncer de pulmão, por exemplo, leva cerca de 30 anos. “O efeito do cigarro permanece por vários anos, mesmo após o fumante largar o vício. A curva de envelhecimento do organismo é muito mais rápida no fumante. Às vezes, um paciente me pergunta: mas por que eu parei? E eu respondo: porque, se não tivesse, seria muito pior”, alerta.

Conscientização

Em 25 anos, o Brasil viu a porcentagem de fumantes diários despencar de 29% para 12% entre homens e de 19% para 8% entre mulheres. O País ocupa o oitavo lugar no ranking de número absoluto de fumantes (7,1 milhões de mulheres e 11,1 milhões de homens), mas a redução coloca o Brasil entre os campeões de quedas do número de fumantes. Apesar do índice positivo, ainda há muito com o que se preocupar.  “A gente se concentra muito em trabalhar com o tabagista, mas investe pouco na educação da criança e do adolescente. Existem campanhas, mas são isoladas. Vemos as campanhas do ‘Pare de fumar’, mas não vemos a campanha do ‘Não comece a fumar’”, avalia a pneumologista.

Abandonar o cigarro é muito mais difícil que prevenir a primeira tragada. Para se ter uma ideia, o poder de dependência da nicotina é muito maior que o do álcool – é algo comparado ao da heroína. Entre as pessoas que conseguem parar de fumar, a maioria já tentou mais de uma vez. “Se levarmos em conta todas as pessoas que tentam abandonar o vício, no período de dois anos, só 50% conseguem. Ainda é pouco. Há pessoas que, mesmo com uma patologia mais avançada, não conseguem deixar o vício, porque a dependência é muito grande. Todo dia é o melhor momento para qualquer um parar de fumar, mas, antes de os problemas começarem, é sempre mais vantajoso”, finaliza.

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