Carlos Alencar

Autor da coluna O Sofista, publicada nas terças-feiras, no Diário da Manhã. O interesse do Sofista é apresentar com excelência a realidade nos argumentos do debate, ao invés de tutorar sua opinião e decidir o que deva pensar.

O Rei e o Louco

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Há tempos em que tudo flui com a previsibilidade de uma harmonia maternal, aconchegando e acalentando as expectativas como quem houvesse domesticado quaisquer artimanhas do futuro, que, desarmado e rendido, obedeceria pacientemente aos caprichos da vontade-rainha, inebriada em justificar sua monarquia com a fértil criatividade revelada para dizer em todas as formas possíveis o que se conta numa só confissão erótica: o afrodisíaco controle do indomável destino.

Há tempos em que os impacientes se revelam armados ao desobedecer caprichosamente a quaisquer expectativas acalentadas por quem se haja domesticado, inebriados de todas as formas possíveis a render suas vontades ao controle de uma harmonia-rainha que lhes diga o futuro. Aconchegam-se na imprevisibilidade erótica, mãe fértil de todas as artimanhas, contando fluentemente que sua criatividade afrodisíaca os confessa e os justifica monarcas indomáveis dos seus destinos.

Para o sofista, a ordem é muito mais prazerosa. Assistir do alto de sua torre a orgia com que se encaixam os planos com as metas enquanto as curvas da realidade nua são devoradas na janela das necessárias ambições filosóficas é a certeza da excelência no seu governo. Cada manhã acorda submissa à obsessão dos seus cálculos, correndo para acompanhar a sedução dos seus desejos, que marcham consistentemente passos pensados com frieza sádica e método incontestável. Cada noite dorme lânguida com a felicidade íntima dos seus deveres completamente cumpridos, ávida em adivinhar nos sonhos a execução estratégica da escrita nos seus próximos parágrafos. Como é delicioso ser rei…

Para o sofista, contudo, o caos é muito mais prazeroso. Desgovernar a realidade de torres planejadas com o encaixe de certezas e metas curvas que assistem das janelas enquanto a necessária orgia filosófica altivamente desnuda e devora é a excelência de sua ambição. Cada manhã deve acordar sádico, contestando obsessivamente o cálculo de toda estratégia, insubmisso à inconsistência dormente na marcha fria dos métodos. Cada noite corre acompanhado da escrita seduzida, os passos dela avidamente desejando adivinhar a execução dos seus impensados, mas próximos parágrafos, até cumprir-se completamente feliz e lânguida a intimidade sonhada. Como é delicioso ser louco…

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