Diagnóstico rápido ajuda a diminuir mortes por Aids

Em Carazinho e Passo Fundo, 327 pessoas desenvolveram doença nos últimos cinco anos. Enfermeira lembra que ainda há preconceito, mas todo paciente hoje pode viver com dignidade

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Isadora Stentzler                 Caetano Barreto

O número de casos de Aids diminuiu nos últimos cinco anos em Carazinho e Passo Fundo, mas ainda é maior entre pessoas brancas, heterossexuais e com educação escolar incompleta, segundo dados do Ministério da Saúde levantados pelo Diário.

De 2013 até junho de 2017 foram 72 casos em Carazinho e 255 em Passo Fundo, sendo que de 2013 a 2016, 14 pessoas morreram devido à doença em Carazinho e 71 em Passo Fundo.

De acordo com os dados do Ministério da Saúde, que apontam o histórico da doença em todos os municípios do Brasil de 1980 a junho de 2017, Carazinho zerou os casos de Aids em menores de cinco anos, a partir de 2009, e apresentou queda de 83,3% a partir de 2013.

No recorte que aponta o perfil das pessoas com a doença e elaborado com dados notificados ao Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), a doença é mais presente em pessoas brancas, com ensino fundamental e médio incompleto e em heterossexuais.

Mortes diminuem em Carazinho

Segundo a coordenadora do Serviço de Atendimento Especializado de Carazinho (SAE), Ângela Garcia, apesar da queda do número de pessoas com a Aids, o número de notificações do vírus HIV ainda cresce no município e acompanha um índice nacional, conforme divulgado na terça-feira (27) no Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde.

Só neste ano foram 14 notificações pelo vírus no município – uma vez que a pessoa pode ter sido infectada, mas não desenvolver a doença da Aids – enquanto 266 pessoas adultas seguem em tratamento na unidade. Dessas, 115 são homens e 11 mulheres.

A maioria, 160, são de Carazinho, enquanto as outras 66 vêm de municípios da região. Além desse número, uma criança com o vírus do HIV também é acompanhada junto de outras 10 que foram expostas ao vírus – filhas de mães com o vírus, mas que não tiveram o diagnóstico positivo.

“Embora tenhamos o aumento de notificações do vírus, as mortes têm diminuído. Isso porque a partir de 2013 houve uma abertura para que a medicação fosse distribuída não apenas para pessoas diagnosticadas com Aids, mas também para quem possui o vírus. Então hoje, a partir do momento do diagnóstico, já é dada a medicação e assim que o paciente inicia com ela a carga viral baixa e o paciente tem vida normal, reduzindo os casos de morte”, explica Ângela.

Neste sábado (1°), instituído Dia Mundial da Luta contra a Aids, o município de Carazinho reforçará as ações nas unidades de saúde e fará na segunda-feira (3) um mutirão de testes rápidos para diagnóstico de HIV, sífilis, hepatite B e C em frente à farmácia da Secretaria de Saúde.

Nos demais dias, os testes podem ser feitos a qualquer momento no SAE ou nas unidades de saúde. Nas quartas-feiras ao meio-dia o SAE também permanece aberto para atendimento.

Ângela ainda frisa que a recomendação é que se faça o teste rápido uma vez ao ano ou até 72 horas após uma relação de risco. O teste é gratuito e a Secretaria de Saúde de Carazinho dispõe de medicação para tratamento.

Passo Fundo tem índices alarmantes

De acordo com o Boletim Epidemiológico HIV/AIDS – 2017, a média nacional de casos notificados corresponde a 18,5 casos para cada 100 mil habitantes.

O Rio Grande do Sul é o segundo estado com maior número de pessoas detectadas com a doença, sendo 31,8 casos para cada 100 mil habitantes.  Além disso, o RS lidera o ranking por estados, com 9,6 casos de óbito para cada 100 mil habitantes.

No município de Passo Fundo, os números são considerados alarmantes: 25,3 casos para cada 100 mil habitantes, alcançando a 59ª posição no ranking entre os municípios brasileiros com maior número de indivíduos portadores de HIV. O coeficiente de mortalidade no município corresponde a 11,6 casos para cada 100 mil habitantes, superior ao de todo o estado.

Pelos dados do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das IST, do HIV/Aids e das Hepatites Virais do Ministério da Saúde, o histórico também é preocupante: de 2004 a 2017, foram 719 casos de AIDS registrados no Sistema de Informações de Agravos de Notificação (SINAN), uma média anual de 55,3 casos em 13 anos.

São índices maiores do que os assinalados no período de 1980 a 2004, quando foram diagnosticados 713 casos, uma média anual de 29,7 em 24 anos.

Para Seila de Abreu, enfermeira do Serviço de Atendimento Especializado (SAE), isso acontece pois o comportamento da sociedade com a doença mudou.

“Acreditamos que é uma questão social. Nossa comunidade não está mais vivendo a questão como vivia há 30 anos, quando as pessoas morriam em decorrência da AIDS. Hoje temos jovens que não viveram essa época, que têm outro comportamento, e não estão se cuidando. Nós falamos a eles, fazemos campanhas de prevenção, estimulamos o uso do preservativo, mas a gente percebe que os jovens, com idades entre 20 anos, não levam a sério”, revela.

De 2013 a 2017, foram 227 casos registrados, sendo a maioria do sexo masculino (126), e maiores de 24 anos (199). Também foram relatados 74 casos da doença em gestantes no período. Pelo Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), foram 71 óbitos entre 2013 e 2016.

Abreu, entretanto, afirma que os pacientes diagnosticados com a doença tem todo tipo de descrição.

“Os pacientes que chegam no nosso atendimento são de todas as classes sociais. Não existe um perfil. A doença vinha se mantendo numa média de 90 casos novos por ano, e embora não estejam registrados, esses números tiveram uma queda em 2018. O que nós percebemos esse ano, que foi uma mudança muito drástica, é o aumento no número de casos do sexo masculino. Antigamente esse índice era quase igual, mas neste ano, 80% dos casos são homens. E desse número, 60% são casos de homens que mantém relações com pessoas do mesmo sexo. Então voltou a aumentar o número de incidência de HIV entre homossexuais, algo que não estava ocorrendo”, aponta.

Prevenção e preconceito

Segundo a enfermeira do SAE, os esforços dos agentes de saúde ainda são na prevenção.

“Focamos muito na questão do uso da camisinha, e vamos falar muito ainda sobre isso, pois é o principal meio de prevenção, e também no diagnóstico precoce, incentivando as pessoas a fazer esses exames. Pois quando mais cedo for diagnosticada a doença, melhor vai ser o tratamento, e maior será a chance de que o seu quadro se agrave”, alega Abreu.

Para quem convive direta ou indiretamente com a doença, Abreu lembra que existe tratamento, e que o paciente soropositivo não deve ser tratado de forma diferente.

“O HIV ainda é uma das doenças que mais envoltas em preconceitos, que as vezes está dentro da própria casa, no meio familiar. Ainda vemos muito isso, de pessoas que sofrem todo tipo de discriminações. Mas o HIV, hoje, se descoberto com antecedência, tem tratamento que faz com que a carga viral seja detectável, e isso propicia às pessoas infectadas uma vida com mais dignidade, dando a elas a oportunidade de manter suas atividades de forma normal, tendo casos de pessoas com mais de 25 anos de soro positivo vivendo com apenas algumas restrições. Mas não dá pra banalizar: é uma doença crônica, existem alguns cuidados, exige medicação diária, exames de rotina, mas o tratamento evoluiu bastante e permite uma vida digna aos pacientes”, defende Seila.

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