‘É uma quebra de paradigma’, diz primeira mulher a chefiar a Polícia Civil

Diário entrevistou a delegada Nadine Anflor, natural de Getúlio Vargas e formada pela UPF, que assumiu a instituição nesta semana. Ela é a primeira mulher a ocupar o cargo em 177 anos da instituição

Foto: Rodrigo Ziebell/SSP

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Nadine Tagliari Farias Anflor, de 42 anos, assumiu a chefia da Polícia Civil do Rio Grande do Sul nesta semana. Ela é a primeira mulher a ocupar o cargo em 177 anos da instituição. Natural de Getúlio Vargas, a delegada é formada em Direito pela Universidade de Passo Fundo (UPF) e está na PC desde 2004.

Nadine foi titular da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (DEAM) de Porto Alegre e também a primeira coordenadora dessas delegacias no RS. A delegada também presidiu a Associação dos Delegados de Polícia e foi diretora da Divisão de Assessoramento do Departamento de Polícia Metropolitana.

Diário – Qual a sua relação com Passo Fundo?

As minhas boas lembranças como estudante estão em Passo Fundo. Eu me formei no 2º grau no [Colégio Marista] Conceição e fiz toda a minha faculdade na UPF. Tenho um carinho especial. A minha saída de casa, de Getúlio Vargas, foi justamente para morar em Passo Fundo. Desde então, eu não voltei mais porque vim morar em Porto Alegre quando me formei. Entrei na UPF em 1994 e saí em 1999.

Diário – O que significa, de forma pessoal e profissional, ser a primeira mulher a comandar a Polícia Civil?

É uma quebra de paradigma, para a instituição e para a sociedade gaúcha como um todo. Infelizmente, isso ainda é notícia e, naturalmente, eu já sabia que seria. Mas a minha intenção, no momento em que aceitei – como a gente diz na polícia, que ‘missão dada é missão cumprida’ – é justamente quebrar esse paradigma. Não tenho dúvida de que nós teremos muitas outras mulheres chefes de polícia. Hoje, somos 31% de delegadas, 37% entre os agentes. Aceitei sabendo que é um grande desafio, mas principalmente pelo apoio que tenho recebido de agentes, delegados. Isso para mostrar que lugar de mulher é onde ela quiser estar, seja dentro de casa ou comandando uma instituição.

Diário – Quais serão as prioridades do novo comando?

Vamos dar um olhar específico à violência contra a mulher, a violência como um todo e também para as organizações criminosas. Queremos reprimir essas organizações, investigar, e interiorizar através das Delegacias de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) o trabalho já feito pelo Deic e pelo Denarc. Teremos uma atenção especial nas investigações de homicídios, repressão aos líderes de associações ligadas ao tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e a toda forma de corrupção.

Diário – E como será tratada a violência contra a mulher?

Faremos um projeto-piloto em Porto Alegre através de um departamento novo, o Departamento de Proteção a Grupos Vulneráveis (DPGV). Até a criação desses departamentos, as delegacias tinham o nome de especializadas, mas não pertenciam a um departamento especializado. Todas as delegacias da mulher farão parte. Queremos ampliar as atribuições delas no interior do Estado.

Quando atendemos uma mulher, atendemos também crianças, idosos, a família como um todo. Teremos um olhar para o todo e não somente para a mulher, para a criança, mas para a violência que atinge a família. Vamos fomentar também a rede de atendimento. Porque, sem uma rede forte, que possa atender e acolher as vítimas, não vamos conseguir reduzir os números de crimes.

Diário – E a corrupção e os crimes contra a administração pública, como serão abordados no novo comando?

As Dracos terão atribuições de investigações maiores, justamente para desmantelar organizações criminosas, principalmente os líderes do tráfico de drogas, e também a lavagem de dinheiro. Porque, hoje, a investigação da lavagem de dinheiro proporciona a descapitalização do crime. Temos que tirar o dinheiro das grandes organizações criminosas. Isso, com certeza, trará um benefício muito grande. Todo o dinheiro desviado da administração pública faz com que falte para as políticas públicas e gera uma insegurança ainda maior.

Diário – O déficit no efetivo da PC tem sido um problema nos últimos anos. Como isso será trabalhado?

Temos quase cinco mil servidores. Mas, assim como em outras instituições, há uma carência. Estamos felizes porque temos 400 agentes na academia neste momento, que ingressarão no mês de abril ou maio. É um alento, um reforço. Teremos de trabalhar com criatividade, avaliar todo o mapa da criminalidade no Rio Grande do Sul, concentrar os esforços nos locais nos quais há maior criminalidade e reforçar o efetivo nessas áreas.

Diário – Existe a expectativa de mais servidores para os próximos anos?

Temos um concurso para 1,2 mil. A primeira turma é desses 400. Esperamos que os demais sejam capacitados ao longo de 2019 e 2020.

Diário – O vice-governador e secretário de segurança [Ranolfo Vieira Júnior] foi delegado, chefe de polícia. Como a presença dele pode ajudar a PC?

É fundamental, dá outro peso para a segurança pública. Com o acúmulo da vice-governança e a secretaria de segurança, com certeza, ele vai tratar a segurança como prioridade, apesar de toda a carência de recursos que temos hoje. Será um ano de enxugamento de gastos, compreendemos a crise financeira, mas sabemos que ele vai ter um olhar específico. Ele sabe que não existe segurança pública sem investimento.

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