Escolas estaduais: agressão contra professores e funcionários chega a 245 casos

Sem casos relevantes na abrangência da 7ª Coordenadoria Regional de Educação, Rio Grande do Sul teve mais de 100 ocorrências neste ano. Educadores acreditam em desestruturação familiar como principal motivo para o comportamento

Foto: Arquivo | Diário

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Somente no segundo semestre de 2018, mais de 100 casos de agressão física a professores, funcionários ou diretores de escolas foram registrados pelo levantamento realizado pelas Comissões Internas de Prevenção de Acidentes e Violência Escolar (Cipave), da Secretaria Estadual de Educação, conforme demonstrou balanço divulgado pelo Diário na edição de ontem. Ainda que os números tenham reduzido, num comparativo entre o segundo semestre de 2017 e 2018, ao passar de 139 ocorrências de agressões físicas para 113, a realidade ainda assusta quem tem o ensino como profissão. Os dois semestres de 2018 contabilizaram, juntos, 245 casos.

No caso das agressões verbais, também houve redução do índice. Da temporada passada para a atual, a diferença foi de uma redução de 1.295 casos. No entanto, os números levantados em mais de mil escolas estaduais gaúchas é significativo. Para compreender o porquê desse comportamento agressivo e descontrolado de crianças e jovens, é necessário entender o contexto no qual eles estão inseridos até passar pela porta da sala de aula.

De acordo com a 7ª CRE, num comparativo geral entre os índices estaduais do segundo semestre de 2017 para o segundo semestre deste ano, houve uma redução de 42,14% das ocorrências. No caso de agressão física a professores, funcionários ou direção, os dados seguem estagnados. Segundo a 7ª CRE, dos 113 casos de agressão física a educadores, nenhum desses ocorreu na região de abrangência da região de Passo Fundo. A assessora pedagógica responsável pelo Cipave em Passo Fundo, ligado a 7ª CRE, Vanusa Rossetto de Assis, declara que a realidade em nível estadual não se reflete na região. “Nós não tivemos casos que fossem muito relevantes no que se trata de agressões. Nós temos a ouvidoria e interagimos efetivamente. Se houvesse algum caso relevante de agressão, nós teríamos nos manifestado. Não podemos dizer que tenha sido uma realidade presente na Coordenadoria. Pode ser do Estado, mas não uma realidade visível por aqui”, afirma.

Apesar da realidade ser um pouco distante do cenário estadual, segundo a Coordenadoria, há histórico de agressão a professor em Passo Fundo. Um dos casos mais recentes foi em abril de 2016. Na época, a professora da Escola General Prestes Guimarães, Terezinha Aparecida Rodrigues Hermes, que atualmente é diretora da instituição, acabou agredida com um soco no rosto quando tentava separar uma briga de alunos. Hoje, numa posição diferente de cargo, ela vê com os mesmos olhos os problemas que acarretaram nesse episódio lamentável de sua carreira. “É uma geração sem paciência, totalmente intolerante. Eles [estudantes] não pensam nas consequências, agem no imediatismo. Querem resolver tudo na base da violência”, explana.

Segundo a diretora, a explicação para que pessoas tão jovens tomem atitudes agressivas em âmbito escolar parte de uma desestruturação familiar. Terezinha acredita que muitos pais tomam o rumo de se tornarem alheios à vida dos filhos. “Uma parte vem dos pais que deixam, que são totalmente alheios a vida dos filhos, outros que incentivam a violência. Isso é muito grave. É algo que começa desde o primeiro ano do fundamental até o ensino médio”, pontua a professora que já foi agredida.

Outra questão elencada por Terezinha é quanto ao uso de bebida alcoólica e o crescimento da drogadição entre pré-adolescentes e adolescentes. Dois fatores, inclusive, que apontaram crescimento no levantamento divulgado pelo Cipave em todo o Rio Grande do Sul. “Isso sempre gera mais violência. E os pais se tornam ausentes, deixam os filhos livres, por conta. Muitos deles [estudantes] agem dessa forma por desestrutura familiar. Na verdade, acabam passando por situações de violência física ou verbal em casa. De uma certa forma, sofrem agressão e acabam descontando em cima da gente [professores, funcionários etc]”, enfatiza a diretora.

“AUTORIDADE DOS PAIS FOI FRAGILIZADA”

Dentro do tema de desestruturação familiar, Vanusa Rossetto declara que, num âmbito geral, não há papel bem definido dos deveres familiares. “Se pensarmos de uma forma geral a respeito do porquê dessas condutas, num raciocínio lógico, de não vivenciarmos no momento uma célula familiar com papel bem definido. Nós sabemos que a autoridade dos pais foi fragilizada por um bombardeio de informações. Muitas vezes, os pais têm uma leitura equivocada do que eles percebem no mundo. O que se evidencia, a partir do estatuto da criança e do adolescente, é que os pais não podem oprimir fisicamente, psicologicamente os seus filhos. Mas orientá-los, educá-los, ter firmeza, isso ninguém diz que não é possível”, declara.

AÇÕES QUE BUSCAM PAZ NAS ESCOLAS

A assessora do Cipave para a região da 7ª CRE, Vanusa Rossetto, declara que o trabalho realizado pelas comissões internas buscam a promoção da paz. De acordo com ela, o Cipave realizou ações de formação em gestão de conflitos em parceria com o Núcleo de Mediação e Justiça Restaurativa (Mediajur) da Universidade de Passo Fundo (UPF). “Nós trabalhamos com intuito de promover a paz. Fizemos gestão de conflitos com a Mediajur, atividade em que envolveu professores de escolas da rede municipal de Passo Fundo e também da rede estadual. Partimos com base em alguns textos, leituras que evidenciaram para nós que possamos vivenciar um contexto pacífico, mas que cada um deve fazer sua parte. O professor é o adulto da relação, por mais recorrente que seja essa frase. No momento que o professor percebe que, com uma postura pacificadora, ele pode ter como resposta dos estudantes uma relação mais fácil, uma resposta melhor”, declara.

A diretora da Escola General Prestes Guimarães relata que existem ações internas na instituição com o apoio da Brigada Militar. Neste ano, por exemplo, foram oferecidas palestras que abordaram temas como a Lei Maria da Penha, a violência, os direitos e as consequências de práticas ilegais. “Como eles são menores, pensam que tudo o que fizeram ‘não vai dar em nada’. Então, nós trabalhamos com esse lado da violência, da drogadição, da Maria da Penha. Foi mostrado que é sim penalizado. Com isso, diminuiu muito a questão da agressão verbal na escola. Já estamos planejando para o próximo ano trabalhar com uma campanha para terminar essa cultura do ‘não dá nada’”, expõe Terezinha.

VIOLÊNCIA CONTRA PROFESSORES DIMINUIU EM CARAZINHO

por ISADORA STENTZLER
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Em Carazinho, iniciativas dentro do programa Comissão Interna de Prevenção a Acidentes e Violência Escolar (Cipave) mais a parceria com a ONG Mocidade para Cristo (MPC) Brasil têm ajudado a frear os índices de violência nas escolas.

Segundo dados da Comissão, em três anos, as agressões físicas caíram 70% nas escolas estaduais de Carazinho – passando de 30, em 2016, para 9, em 2018 – e as verbais caíram 64,6% – passando de 529 para 187 no mesmo período.

A titular da 39ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE), Sandra Bandeira, ressalta que aliado aos programas do estado, as ações preventivas de entidades ajudam a suprimir o problema, além do suporte que a ONG MPC Brasil deu aos professores, alunos e demais funcionários.

A ONG, ligada a três igrejas evangélicas do município, já desenvolveu a atividade em três escolas estaduais de Carazinho: Marques de Caravelas, Princesa e Ernesta Nunes.

“Esta ONG se formou em Carazinho este ano e em meados de março apresentou suas atividades para nós”, explica Sandra, que disse ter lhe “brilhado os olhos” a iniciativa. “Com foco na valorização à vida, eles desenvolvem temas que a equipe diretiva quer que trabalhe: drogas, autoestima… e desenvolvem um trabalho muito bonito que atinge todos os agentes (pais, alunos e professores)”, cita.

Diante dos dados que apontam queda, Sandra também frisa que há uma ligação direta deles com a implementação da Cipave, uma realidade também desde 2016.

Embora as ações estejam acontecendo nas escolas, elas ainda não foram capazes de zerar os índices. Isso porque, explica Sandra, a desestrutura familiar em que estão inseridos alguns alunos os leva para o que ela chama de geração “nem nem”. “Nem estudam e nem trabalham. O que vemos é que todo ‘aluno problema’ na escola tem problema em casa: vem de família desestruturada, com alto índice de drogadição. O aluno que tem pai e mãe presente jamais vai ‘dar trabalho’”, aponta.

A coordenadora, que deixa o cargo a partir de 2019 devido à saída do governador José Ivo Sartori (MDB) do Rio Grande do Sul, defende a necessidade da continuação desses programas aliados a novas políticas públicas que amparem essas famílias. “Mas sem dar o peixe, precisam aprender a pescar”, frisa.

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