Mais de 100 colmeias de abelhas são encontradas mortas em São José das Missões

Além do prejuízo ambiental, apicultores do interior do município acumulam perdas de até R$ 60 mil reais. Comando Ambiental da Brigada Militar  de Frederico Westphalen suspeita de contaminação por defensivos agrícolas

Foto: Divulgação/Comando Ambiental da Brigada Militar de Frederico Westphalen

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Tendo como possível causa a contaminação da mistura de um inseticida e um herbicida usado na lavoura de soja, mais de 100 colmeias de abelhas foram encontradas mortas em Linha Progresso, interior do município de São José das Missões, norte do Rio Grande do Sul, na última semana.

A estimativa da Emater-RS/Ascar de Frederico Westphalen dá conta de mais de 200 colmeias infectadas, enquanto o Comando Ambiental da Brigada Militar indica pouco mais de 100.

Mesmo com a divergência nos números, a ocorrência de mortandade dos insetos pode ser considerada grande, um prejuízo ambiental e financeiro para os apicultores da região.

Segundo o engenheiro agrônomo da Emater, Mairo Piovesan, os relatos de contaminação começaram ainda em 2018, nos últimos dias do mês de dezembro.  Nove apicultores do interior do município  comunicaram as perdas, no entanto, o agrônomo acredita que podem haver outros casos, de produtores que ainda não foram conferir os apiários.

“Há uma suspeita, levantada pelos próprios apicultores, que houve uma contaminação de agrotóxico usado para matar o nabo forrageiro, que nesse momento é uma planta invasora da soja, no estágio de floração, essa flor [o nabo] atrai a abelha”, explica.

Aplicação incorreta de defensivo agrícola para soja é a principal suspeita da BM pela contaminação. Polícia Civil irá decidir se solicita perícia nos locais registrados

De acordo com a natureza da morte das abelhas e das colmeias, o inseticida empregado, segundo Piovesan, é um sistêmico, onde o inseto é atingido e vai para a colmeia, contaminando o restante dos animais por consequência.

São necessários poucos animais para que haja uma total contaminação na colmeia.  A abelha pode atingir um raio de até 3 km de distância na busca por seu alimento.

De acordo com a soldado Juliana Celita Lahr, comandante do Comando Ambiental da BM  de Frederico Westphalen, os registros das ocorrências estão sendo feitos desde a quinta-feira da semana passada (03).

A Universidade Federal de Santa Maria (USFM) se dispôs a realizar a análise dos materiais, mas por enquanto não há uma previsão de quando os laudos estarão prontos. Os relatórios com fotografias e laudos serão posteriormente enviados ao Ministério Público. Pela lei, segundo a comandante, o responsável pela contaminação poderia ser responsabilizado e até mesmo preso.

“Geralmente o crime ambiental é transformado em uma multa pecuniária, o crime não depende do dolo. O agricultor alega não ter feito para prejudicar as abelhas, com o intuito de matar os animais, houve certo descuido na aplicação do produto, então provavelmente será considerado apenas como culposo”, comenta.

Impactos

Para Piovesan, há diversos impactos sentidos pelos produtores, desde o ambiental até o financeiro.

“A interrupção da produção de 200 colmeias que estavam em plena safra, digamos assim, é grande.  Há o mel estocado dentro das caixas onde as abelhas ficam, que também está contaminado, o mel fica impróprio para o consumo e para comercialização”.

O engenheiro comenta que diversos produtores além de produzir o mel para consumo, vendiam o excedente para garantir uma renda extra.

“Dá para fazer uma estimativa que dessas 200 colmeias tivessem ainda 20 kgs de mel cada uma para ser tirados de agora em diante. É uma produção que não vai mais existir. Com um preço médio de R$15 o quilo, ‘nós’ vamos ter um prejuízo de 60 mil reais, que é mais ou menos um prejuízo imediato. É um prejuízo direto e indireto, e esse 60 mil reais são apenas em mel, fora a colmeia, como que você estima um valor de uma colmeia? É complicado”.

Levando em consideração que cada colmeia pode abrigar até 60 mil insetos, cerca de 10 milhões de abelhas foram mortas com a contaminação. A comandante do Batalhão Ambiental diz que nessa proporção é a primeira vez que se tem notícia.

Perdi toda a produção”

O apicultor de Linha Progresso, Jacó de Aldo Dacin, que começou a produção de mel há pouco mais de seis meses, perdeu todas as abelhas.

“As 12 colmeias que tinha morreram, perdi toda a produção. Vou continuar produzindo mel e espero recuperar os animais, mas é um prejuízo muito grande”.

Dacin reforça a suspeita do engenheiro agrônomo da Emater, de que pelos defensivos empregado na cultura da soja às abelhas tenham sido infectadas.

Orientação aos apicultores

Mairo ressalta que neste momento a orientação dada aos apicultores é de não consumir o mel em estoque nas caixas e depois fazer a limpeza dos favos, com a troca da cera. Na medida que o inverno passar, os produtores devem colocar essas caixas já limpas e adequadas para atrair novos enxames.

“Nesta região atingida, uma região produtiva, que vive da agricultura, dizimou-se praticamente toda a população total das abelhas, isso a gente conta em colmeias que estão nas caixas, mas também existem as colmeias que estão na mata nativa, na floresta, que também cumprem a sua função, outras espécies. Há tempo para se recuperar, mas vai demorar um pouco mais”.

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