Sem repasses estaduais, hospitais demonstram preocupação para 2019

Situação crítica do pagamento de incentivos reflete nos hospitais de Passo Fundo, que se remetem a financiamentos bancários para manter contas em dia

Fotos: Matheus Moraes | Diário

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O atraso nos repasses de recursos por parte do Estado alerta as direções de hospitais gaúchos, que demonstram preocupação em relação ao futuro dos atendimentos. De acordo com a Federação das Santas Casas e Hospitais Filantópicos do Rio Grande do Sul, a dívida do IPE Saúde bate na casa dos R$ 131 milhões na rede que contempla 269 santas casas e hospitais sem fins lucrativos. A dívida do Estado sobre incentivos do Sistema Único de Saúde (SUS) é de cerca de R$ 130 milhões.

Estado deve quase R$ 30 milhões em programas de incentivo ao HSVP e HC

Segundo o Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), pelo menos 11 instituições hospitalares já registraram interferência em seus serviços por motivos de falta de recursos e, consequentemente, de pagamento. Em Passo Fundo, o Diário da Manhã abordou em reportagem na última semana que o Estado deve quase R$ 30 milhões em programas de incentivo, junto o IPE Saúde, para o Hospital São Vicente de Paulo (HSVP) e o Hospital de Clínicas (HC) – que também engloba o Hospital Psiquiátrico Bezerra de Menezes. No caso do HC, o déficit existe desde agosto. Já no HSVP, há recurso a receber desde setembro. Nestes meses, as instituições utilizaram de financiamentos bancários para pagamento de custo, materiais, folha salarial etc. No entanto, conforme havia relatado o administrador do HC e vice-presidente da Federação RS, Luciney Bohrer, a situação já chegou no limite. “Já chegamos no nosso teto. Daqui a pouco, fica inviável só tirando crédito para pagar conta”, disse, na época.

O superintendente executivo do HSVP, Ilário Jandir de David, declara que as contas na instituição hospitalar chegam todos os dias. Ou seja, se torna difícil mensurar o número exato que o hospital tem a receber. No entanto, a administração já precisou efetuar dois pagamentos de folha salarial com ajuda de empréstimos bancários. A situação preocupa com a chegada do último mês do ano e, segundo ele, a perspectiva de que, mesmo com a mudança na gestão estadual, o cenário não se modifique. “É uma mudança a cada dia. Sempre há esperança que os recursos possam vir. Você sempre acredita que possa chegar algum depósito pela manhã, mas não chega. A nossa preocupação, como gestores, é pensar no dia de amanhã, nas contas a pagar. A gente já pensa num cenário que as dificuldades irão aumentar, porque estamos na reta final de ano. O Estado acabou com os recursos e há uma troca de governo. Não temos nenhuma perspectiva de mudança, que vai acontecer algo novo. Nossa preocupação é grande”, afirma.

Administrador do HC, Luciney Bohrer

O receio principal, em razão das complementações bancárias para pagamentos, é quanto aos fornecedores de materiais e medicamentos do HSVP. Segundo Ilário de David, muitos hospitais já demonstraram dificuldade de pagar os fornecedores, que deixam de entregar se o tempo limite de pagamento for ultrapassado. “A minha maior preocupação é que o fornecedor pare de fornecer material, como já acontece em outros locais. Os fornecedores têm um limite para esperar o pagamento, e eles falam que a última e a penúltima remessa não foram pagas. Sem fornecimento de material, você começa a ter restrições de atendimento. Não por vontade do Hospital, mas por problema técnico, falta de recursos financeiros para comprar materiais. A preocupação se torna com a funcionalidade da instituição”, completa o superintendente executivo do HSVP. O Hospital Municipal Dr. César Santos, por ser de baixa complexidade, não se encaixa no programa de incentivos do Estado, como as outras instituições citadas na reportagem.

“NÃO CONSEGUIMOS NEM DORMIR”, AFIRMA SUPERINTENDENTE DO HSVP

Superintendente executivo do HSVP, Ilário Jandir de David

A situação, que não se restringe a apenas Passo Fundo, tira o sono dos administradores do Hospital São Vicente. A chegada de dezembro, o pagamento do décimo terceiro salário e a chegada de um novo ano, sem os recursos financeiros garantidos, assusta Ilário. “Isso nos preocupa bastante. Vamos entrar em janeiro de que forma? Qual perspectiva? É tudo ponto de interrogação. Estamos vendo essa situação a cada dia só piorando nos hospitais. Alguns com cirurgias eletivas suspensas, adiadas. É uma situação que nos deixa sem conseguir dormir, pensando no que pode acontecer no futuro”, enfatiza. De acordo com o superintendente, 70% do atendimento do HSVP é oriundo do SUS, além de quase 20% por meio de plano de saúde do IPE. “A maioria do hospital tem volume de atendimentos vinculado ao Estado. Se ele [governo] está com toda dificuldade, se torna uma bola de neve”, conclui.

CONSELHO DE SECRETARIAS MUNICIPAIS FAZ ALERTA

O Conselho das Secretarias Municipais de Saúde do Rio Grande do Sul (COSEMS/RS) realizou uma carta pública de alerta à comunidade gaúcha quanto a falta de financiamento da saúde pública no RS, em razão dos atrasos de recursos. “A falta de repasse gera o endividamento do estado com os municípios e prestadores e, consequentemente, a desassistência na prestação de serviços à população nos municípios. A interrupção e falta de regularidade das transferências de recursos estaduais para os municípios que ocorre desde 2014, causando o endividamento e a insolvência financeira dos municípios e prestadores, não apenas no âmbito da saúde. Diante destes fatos, o COSEMS/RS emite a presente manifestação, que visa alertar à população gaúcha do risco iminente de paralisação geral dos serviços de saúde no Estado]”, declarou, em trecho da manifestação.

ESTADO DIZ QUE MANTÉM ESFORÇO PARA REGULARIZAÇÃO

Em comunicado oficial, o governo do Estado declarou que quitou dívidas antigas com hospitais e que mantém esforço pela regularização dos repasses. Segundo o Estado, em 2015, a dívida herdada era de R$ 763 mi. De janeiro a setembro, o Estado declarou que repassou R$ 1,8 bilhão para hospitais e prefeituras. Outros R$ 200 milhões foram objeto de sequestros judiciais para compra de medicamentos. O atraso atual, de duas parcelas, segundo o Estado, é de R$ 130 mi.

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